Ouvir música ajuda a tratar TDAH
Para a maioria das pessoas, a música é uma forma de entretenimento mas para algumas, especialmente aquelas com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a música se revela como uma poderosa ferramenta para a mente.
No Brasil, estimativas indicam que a prevalência do transtorno na população infantil e adolescente varia de 3% a 6%, com muitos desses sintomas persistindo na vida adulta. O cérebro de uma pessoa com TDAH funciona de forma única, com diferenças notáveis na regulação de neurotransmissores, que desempenha um papel crucial na motivação e no foco. Níveis mais baixos de dopamina podem levar à busca por estímulos externos para manter o cérebro engajado, e é aí que a música entra em cena.
Ao longo dos anos, a definição de TDAH evoluiu de “mínimo dano cerebral” nas décadas de 1950 e 1960 para condição reconhecida por afetar a atenção, o controle de impulsos e, em alguns casos, a hiperatividade.
Um estudo recente da Universidade de Montreal, realizado pelas pesquisadoras Kelly-Ann Lachance e Pénélope Pelland-Goulet, junto à neuropsicóloga clínica Dra. Nathalie Gosselin, desvendou como a música é utilizada de forma estratégica por jovens adultos com sintomas de TDAH. A pesquisa, que entrevistou 434 pessoas entre 17 e 30 anos, revelou que indivíduos com TDAH ouvem música com mais frequência, principalmente durante tarefas que exigem concentração mental, como estudar ou resolver problemas complexos.
Essa não é uma simples distração, mas um mecanismo de autorregulação. Enquanto a maioria das pessoas escolhe músicas calmas para se concentrar e músicas animadas para relaxar, o estudo mostrou que indivíduos com TDAH preferem canções estimulantes e energizantes, independentemente da dificuldade da tarefa. Pense, por exemplo, em uma playlist de rock pesado para estudar. Isso é o oposto do que a maioria das pessoas faria, mas para um cérebro com TDAH, a batida acelerada e o ritmo envolvente podem funcionar como um estímulo que “acorda” a mente, ajudando a compensar a deficiência de dopamina e a manter o foco em uma tarefa que, de outra forma, seria considerada tediosa.
Essa descoberta está alinhada com a teoria da Excitação Cerebral Moderada, que sugere que pessoas com TDAH operam em um nível de excitação mental mais baixo e, por isso, buscam ativamente estímulos para se manterem alertas. A música, em particular a música com ritmo acelerado, se torna uma fonte de dopamina, o que ajuda a manter a atenção e a motivação durante atividades rotineiras. Por exemplo, uma pessoa com TDAH pode usar uma playlist de música eletrônica para se manter energizada enquanto faz a limpeza da casa, transformando uma tarefa monótona em algo que exige menos esforço mental.
Além do foco, a música tem um papel emocional significativo. O estudo confirmou que tanto pessoas com TDAH quanto pessoas neurotípicas (sem TDAH) sentem que a música melhora a concentração e o estado de espírito. No entanto, o que difere é a frequência de uso. Quem tem TDAH recorre à música com mais constância para gerenciar suas emoções, seja para acalmar a ansiedade ou para melhorar um humor deprimido. A música, portanto, não é apenas um truque cognitivo, mas também uma muleta emocional. Essa forma de lidar com as emoções é particularmente relevante para pessoas com TDAH, que frequentemente enfrentam altos e baixos emocionais.
Embora o estudo se baseie em autorrelatos e não em diagnósticos clínicos formais, seus achados sugerem que a música é uma estratégia mental poderosa e intencional.
As descobertas da pesquisa abrem um caminho para o desenvolvimento de ferramentas musicais personalizadas. A equipe de pesquisadores está, inclusive, buscando entender quais elementos da música, como andamento, volume ou gênero, fazem a maior diferença no foco, e se é possível criar playlists sob medida para ajudar pessoas com TDAH em ambientes acadêmicos e profissionais. O futuro da música pode ser mais do que apenas entretenimento; ela pode se tornar uma ferramenta de apoio cognitivo, acessível e prazerosa, para ajudar a todos a prosperar.
Thiago Rocioli
Foto: Freepik
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