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Olhar para cima dá trabalho!

Mais difícil do que pagar boletos, cumprir prazos, responder mensagens atrasadas ou manter a sanidade em meio ao barulho do dia a dia é simplesmente olhar para o céu. Não por falta de céu — ele continua lá, fiel e silencioso —, mas por falta de tempo interior. O homem e a mulher contemporâneos vivem com os olhos colados no chão: na tela do celular, no relógio, nas contas, nas urgências inventadas. Olhar para cima exige pausa, e pausar, hoje, parece quase um ato de rebeldia.

A contemplação, que já foi uma das experiências mais humanas e necessárias, tornou-se suspeita. Se você para, parece improdutivo. Se silencia, soa estranho. Se contempla, parece perdido. Aprendemos a medir o valor das coisas pela velocidade, pela eficiência e pelo resultado imediato. Nesse ritmo, o céu virou apenas cenário ou, quando muito, um detalhe irrelevante ao fundo da selfie. Perdemos a capacidade de nos espantar e, sem espanto, não há filosofia, não há oração, não há verdadeira humanidade.

Os antigos sabiam disso. Aristóteles afirmava que a filosofia nasce do thaumázein, do espanto diante do real. Olhar para o céu não era fuga; era fundamento. Era reconhecer que o mundo é maior do que nossas preocupações, que existe ordem, mistério e limite. Contemplar era educar a alma para que não se tornasse escrava do imediato. Hoje, ao contrário, acreditamos que dominar tudo é sinal de maturidade quando, na verdade, estamos apenas nos fechando em um mundo cada vez menor.

A consequência é visível: ansiedade constante, sensação de vazio, incapacidade de sustentar o silêncio e dificuldade de lidar com perguntas que não têm resposta rápida. Quem não contempla perde o senso de proporção. Tudo se torna grande demais ou pequeno demais. Os problemas se agigantam, e o sentido encolhe. Sem céu, o homem torna-se refém da própria mente; sem transcendência, a vida vira um ciclo fechado de tarefas e distrações.

Recuperar a contemplação não exige retiros longos nem fugas místicas. Exige coragem. Coragem de desligar o celular por alguns minutos, de caminhar sem fones de ouvido, de olhar o céu no fim da tarde e admitir que nem tudo depende de nós. Contemplar é um ato de humildade: reconhecer que há algo maior que nos precede, nos sustenta e nos ultrapassa. Talvez seja justamente isso que mais nos falte hoje — não mais informação, mas mais céu.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Olhar para cima dá trabalho!- Will insert post title.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana.

Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.

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