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Manual de instruções dos filhos: ninguém leu, mas todo mundo opina

Falar de educação de filhos é sempre uma incógnita, porque tem uns que acham isso e outros que acham aquilo. Mas, no fundo, acima de qualquer opinião, sonho ou achismo, existe a verdade que impera e se sobrepõe a qualquer tentativa egoísta de enganar a si mesmo e aos outros. Porque, no fim, educação não é falação nem ordenamento militar, mas o ato de transformar esse pequeno ser em alguém cada vez mais humano — um ser humano maduro. Criança é pequena, sim, mas você é justo enquanto pai ou mãe conforme dá a ela as condições possíveis para seu crescimento completo. Assim como se cuida da semente pensando na árvore, cuida-se de uma criança pensando no adulto que ela se tornará, com todas as potencialidades e liberdade que possuirá.

Dormir ou não com a criança na cama, deixar ou não a criança dormir na casa da tia, nunca foram acontecimentos pelos acontecimentos, mas sempre as consequências daquilo que você escolhe para o seu filho.

 É aí que os pais têm se perdido.

Perguntaram-me esses dias: como posso ajudar mais e ser mais próximo do meu filho — uma criança de 5 anos? E eu respondi: rotina. E me silenciei. A pessoa ficou me olhando assustada, como quem esperava algo bonito e profundo.

 A única coisa capaz de dar liberdade, proximidade real e o famoso “tempo de qualidade”, tão falado atualmente, é a rotina. Ela protege a família, dá previsibilidade e ordem para as crianças e ainda entrega, de bandeja, momentos de partilha e intimidade para o casal depois que a meninada vai para a cama às 20h.

Às vezes, temos pessoas próximas em casa — algum familiar ou amigo que vem nos visitar — e se deparam com nossa pequena de 3 anos que, após o banho, vai tomar água, pega sua cobertinha vermelha e se deita sozinha para sua soneca da tarde.

 É engraçado como a ordem assusta as pessoas atualmente.

Para você educar seu filho ou sua filha, precisa primeiro educar-se.

Não é fácil nem simples, mas é o primeiro passo para que as coisas funcionem em casa. E, como terapeuta, posso afirmar: a raiz de muitos problemas ligados à saúde mental está na ausência de previsibilidade de tarefas. Já houve casos em que sanamos repetidas crises de ansiedade de uma paciente apenas com o estabelecimento de uma rotina clara. Isso é educação.

Como dizia Víctor García Hoz: “A educação não é uma produção em massa. Educar é planejar e antecipar a singularidade de cada pessoa. É criar o espaço para que a autonomia e a abertura da criança floresçam.”

Educar, por sua vez, não é vomitar regras para que uma criança que mal compreende o que é certo e errado as siga cegamente, mas dar espaço para que ela descubra o mundo, a si mesma e Deus da melhor maneira possível, com bases sólidas que a direcionem ao Bem — como ensina Hugo de São Vítor, no Didascalicon.

Voltando agora a algo mais pessoal, lembro-me de quando Cecília me perguntou:
 — Papai, tem comida pronta lá em casa?
 Ao que respondi:
 — Não sei, vamos precisar ver.
 E continuei:
 — Por que perguntou, Cecília?
 Eis que veio a resposta:
 — Porque nós poderíamos ir a um restaurante, comer uma comidinha gostosa e também brincar nos brinquedos – seguido de um – Que tal, papai?

Ou seja, essa linda garotinha já veio de fábrica com uma configuração que nós, homens, geralmente não possuímos — apenas as mulheres: a sutil perspicácia de perguntar para poder perguntar, isso mesmo. Questiona para obter as bases retóricas suficientes para, então, fazer a real e final pergunta que desejava desde o início. Sim, ela queria comer fora — com apenas 3 anos.

Esse pequeno episódio deixa claro algo que muitos adultos insistem em romantizar: crianças não são anjinhos etéreos, puros e simples, flutuando pela casa. Elas já possuem vontades, preferências, estratégias e uma notável capacidade de buscar aquilo que desejam — ainda que de forma ingênua e encantadora. Erram, testam limites, cometem pequenas falhas quase conscientes e aprendem com isso. Não por pura maldade, mas porque são humanas em formação. E justamente por isso precisam de adultos, de fato adultos, como pais delas.

No fim das contas, educar um filho é aceitar que a tarefa nunca termina em quem é educado. Exige que pai e mãe estejam em constante processo de amadurecimento, revisão de hábitos, correção de rumos e crescimento interior. Não se pode oferecer aquilo que não se possui. Educar bem é um compromisso diário com a própria formação: aprender a ser melhor, mais responsável, mais firme, mais próximo de Deus e mais humano. Só assim será possível educar o filho de maneira justa, verdadeira e ordenada para o Bem — não por discursos bonitos, mas pelo exemplo silencioso de uma vida que tenta, todos os dias, ser coerente.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

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Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana.

Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.

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