Você NÃO precisa de uma VIDA INTEIRA para acertar
As vezes me pego pensando no quanto a vida nos apresenta inúmeras possibilidades, chances para diversos lados e isso tudo dentro de todas as dimensões da nossa existência. E se a gente escolhe mal ou então caminhamos basicamente reagindo como quem tem medo de escolher aquilo que precisamos, não ganhamos tempo, pelo contrário, perdemos esse mesmo tempo da pior forma possível.
Perdoar, se entregar, amar, deixar de ser preguiçoso, abrir mão do vício que nos consome, deixar em fim de ser o chato que vomita regras para os outros, trabalhar com foco, abandonar o egoísmo e ir ao encontro daquele(a) que precisa de nós, ou muitas vezes, daquele(a) que nós precisamos ter próximo. Usar bem o nosso tempo é antes de tudo fazer o que precisa ser feito, antes de fazer o que quiser, liberdade – que está profundamente atrelada ao tempo – é fazer o que precisa ser feito.
Isso começa desde cedo, desde os anos iniciais da adolescência, onde o sujeito se apaixona, e teme ir ao encontro da amada para trocar duas palavras. Ao mesmo tempo que deseja, teme e repulsa, não só por medo de rejeição, mas também por acreditar estar fazendo a coisa errada, por parecer – olhando de fora – pequeno demais, ou ainda, idiota demais. Mas cá entre nós, no fundo tudo parece idiota até ser colocado em prática e dar certo.
Tal comportamento se não for resolvido na mesma adolescência, o indivíduo arrastará isso por toda a vida destruindo-a por completo, em todas as suas áreas. Assim a pessoa enrijece o comportamento e tirando sobre os seus ombros a responsabilidade do fracasso e coloca na ação das outras pessoas a culpa, se fazendo de vítima para aliviar um pouco sua consciência destruída.
Profissionalmente: não deu certo porque foram maldosos com ele e não deram boas oportunidades.
Intelectualmente: não conseguiu evoluir porque os pais não tinham condições ou porque naquela época não tinha diagnóstico de TDAH.
Relacionamentos: as pessoas são egoístas e só pensam em si mesmas – só ele é o puro ser com retas intenções e facinho de lidar.
Financeiramente: está tudo absurdamente caro e a economia está um lixo.
Espiritualidade: não reza por que a sua rotina é corrida e não tem tempo.
Psicologicamente: o mundo moderno é muito pesado, o tempo passa rápido demais e nada é como antigamente.
Nunca, nada, em hipótese alguma toca na real responsabilidade do sujeito em fazer a própria vida acontecer e tomar as suas próprias decisões. Ledo erro. Existe uma grande chance do problema que você carrega hoje e arrasta por décadas, estar na decisão que você ainda não tomou.
Kierkegaard, filósofo dinamarquês, diz que:
“A angústia é a vertigem da liberdade, que surge quando o espírito quer pôr a síntese e a liberdade olha para o abismo da possibilidade.”
O que ele queria dizer era que a angústia nasce quando o indivíduo toma consciência de que sua existência não está determinada. Que ele está diante de possibilidades, de uma vasta gama de possibilidades, e esse volume de oportunidades assusta, o fazendo entender que sua vida depende de suas próprias escolhas.
E ele ainda diz:
“Tornar-se si mesmo é a maior tarefa concedida ao homem.”
O ser humano precisa entender-se como auto construtor, como definidor do seu destino, como aquele que desenha sua própria história com o lápis da liberdade, e essa talvez seja uma das mais difíceis realizações humanas, justamente porque lidar com as possibilidades é algo dolorido e nos coloca no campo da responsabilidade nos fazendo cada vez mas maduros – e isso não costuma ser prazeroso.
E o filósofo continua explicando para concluir de uma maneira compreensível :
“A angústia precede o pecado, pois o pecado entra no mundo por uma escolha.”
Antes de sair murmurando como uma criança birrenta, ou julgando pelo conteúdo religioso entenda: a religião é um dos braços do saber, é uma das dimensões para a construção do conhecimento. Tendo dito isso continuemos…
Adão não peca por ignorância. Ele sabe da proibição divina sobre a Árvore do conhecimento do Bem e do Mal. (Se você não conhece leia Gênesis capítulo 3).
Justamente por isso, sente angústia. Ele pode obedecer ou pode desobedecer. E é diante disso que pode-se compreender que o pecado e o erro não nascem da necessidade, nem mesmo do acaso, mas da liberdade.
A angústia é o “clima existencial” que antecede à decisão.
Kierkegaard rompe com a ideia de que o pecado e o erro é apenas ignorância – como alguns filósofos antigos. O pecado assim nasce de uma escolha, e a angústia é o que antecede a essa escolha.
E o filósofo conclui que a liberdade gera angústia e a angústia pode levar à dois caminhos:
Ao pecado e ao erro (que é a fuga da responsabilidade).
Ou à fé (assumir sua liberdade, como Deus quis).
Tá, mas para quê tudo isso Gabriel?
Para você entender, e colocar nessa sua cabeça dura que você precisa escolher e escolher correto, angustiado ou não, sofrendo ou não.
Trago aqui para encaminharmos rumo finalização da nossa reflexão, o filme que muito me marcou. Em Source Code (em português, Contra o Tempo) acompanhamos um homem que descobre estar condenado a viver sempre os mesmos oito minutos finais antes da explosão de um trem. Sem tempo sobrando, sem controle total da situação e sem garantias de sucesso, ele é lançado repetidas vezes naquele intervalo curto e decisivo, onde cada olhar, cada palavra e cada escolha importam. Não há como fugir do limite: o relógio corre, o fim se aproxima e o que define tudo não é quanto tempo ele tem, mas o que faz com o pouco tempo que lhe é dado.
É justamente aí que o filme toca num ponto profundamente humano: você não precisa de uma vida inteira para mudar sua história. Às vezes, bastam alguns minutos de lucidez, coragem e verdade. Não é o acúmulo de possibilidades que transforma o destino, mas a decisão tomada quando já não há espaço para adiar. A vida real não funciona de modo muito diferente: os momentos que nos definem quase nunca vêm anunciados como “grandes viradas”. Eles chegam discretos, apertados, exigindo ação imediata. E quando passam, levam com eles a chance de escolher melhor.
E agora, no seu interior, você já sabe o que precisa ser feito — e é justamente isso que mais evita. A angústia que sente não vem da falta de caminhos, mas do excesso deles e da consciência de que ninguém pode escolher por você. Cada dia mal vivido é uma escolha silenciosa; cada adiamento, sua liberdade sendo desperdiçada. Enquanto você espera “sentir vontade”, o tempo passa, a vida cobra e seu caráter vai para o ralo. A liberdade não é fazer o que dá prazer agora, é ter coragem de fazer o que precisa ser feito quando ninguém está olhando. E a pergunta que fica, incômoda e inevitável, é simples: o que você já deveria ter feito e continua fingindo que não percebe?
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana.
Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.
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