O brasileiro e a urgência em aparecer
Há no brasileiro uma necessidade quase orgânica de aparecer. Não se trata apenas de vaidade — isso seria simplificar demais —, mas de uma fome de reconhecimento que, muitas vezes, vem antes mesmo de qualquer substância. Não importa exatamente o que será mostrado, desde que seja visto. A lógica é simples e perigosa: se ninguém me vê, eu não existo; se ninguém me reconhece, eu não valho absolutamente nada. Assim, a vida é construída mais para fora, para ser visto, do que na realidade e para si, sem nenhuma boa pretensão em gerar bons resultados para transformar algo em melhor.
Um caso real e emblemático disso é o fenômeno recorrente do Big Brother Brasil, que aliás só foi um sucesso aqui no Brasil, em nenhum outro pais funcionou tanto quanto. Ano após ano, milhares de pessoas se submetem voluntariamente a um confinamento total, vigilância constante e exposição emocional crua, não necessariamente por talento, mérito ou projeto de vida claro, mas pela possibilidade de ser visto. Muitos saem sem prêmio, sem carreira consolidada e, não raramente, com a saúde mental fragilizada. Ainda assim, o desejo de aparecer permanece maior do que o medo de se perder. A vitrine se torna mais valiosa do que a própria vida do sujeito.
Essa lógica se espalhou e ganhou força como um vírus silencioso pelas redes sociais. Não basta viver: é preciso registrar e mostrar… O pior: não se importam se o que está sendo mostrado é bom ou ruim, como dizem por aí: “o importante é aparecer”. Desse modo quando a vida vira espetáculo, a verdade passa a ser negociável. Ajusta-se o ângulo, escolhe-se o filtro, edita-se a legenda — e, aos poucos, vai-se perdendo a capacidade de suportar o anonimato, o silêncio e a normalidade, que são justamente os lugares onde o caráter e a personalidade são formados.
Entenda, querido(a), leitor(a), a questão que levanto não é superficial ao ponto de tocar ao comportamento escolhido de cada pessoa em estar alí dentro, mas na estrutura que proporciona tamanha baixeza humana. Em um arcabolso que coloca no podium de atenção algo como o programa aqui citado e seus desdobramentos humanos.
Talvez o problema não seja o desejo de ser visto em si — todo ser humano quer ser reconhecido —, mas o preço que se está disposto a pagar por isso. E o brasileiro, que já é afetivo, expansivo e relacional por natureza, corre o risco de transformar sua riqueza humana em espetáculo raso e passageiro, vivendo menos para amadurecer e mais para performar. Como a Globeleza na tela da sua tv, toda colorida, risonha, repleta de símbolos culturais, mais dura apenas 2 semanas.
Terminou a coluna dessa semana com o curto imperativo de um grande amigo: “Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto.”
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana.
Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.
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