×

Do BBB 26 ao seu trabalho: quando assédio vira uma conta salgada

Você lembra daquela cena chocante no BBB 26 (Big Brother Brasil 26)? Aquele momento na despensa onde Pedro, o participante que todos achavam “simpático”, tentou beijar Jordana à força, segurando-a pela nuca sem o menor sinal de consentimento. Um reality show que deveria ser diversão virou palco para uma denúncia de importunação sexual que chocou o país. Mas, e se eu te dissesse que isso não é só entretenimento? Que histórias parecidas acontecem todos os dias nos escritórios, fábricas e lojas do Brasil, e que as consequências vão muito além de uma desistência no programa? Vamos conversar sobre assédio no trabalho… Esse fantasma invisível que pode custar empregos, saúde mental e até fortunas em indenizações. Porque, acredite, o que vimos na TV é só a ponta do iceberg de um problema que afeta milhões de trabalhadores brasileiros.

Imagine só: você acorda todos os dias, vai para o trabalho pensando em cumprir suas metas, e de repente, lá está ele (ou ela): o chefe que faz comentários inapropriados, o colega que invade seu espaço pessoal, o superior hierárquico que usa o poder para intimidar.

Parece exagero? Não é.

Segundo dados do Ministério do Trabalho, casos de assédio moral e sexual no ambiente de trabalho cresceram 30% nos últimos anos, com mais de 2 milhões de denúncias registradas anualmente. E o pior: muitas vítimas preferem calar a boca, temendo retaliações, demissões ou até mesmo a exposição pública. Mas o silêncio não resolve nada. Pelo contrário, ele alimenta o ciclo de abusos que pode levar a rescisões contratuais traumáticas, doenças ocupacionais e processos judiciais que viram manchetes.

Vamos começar pelo básico: o que é assédio no trabalho?

Ao contrário do que muitos pensam, não é só aquele tapa no traseiro ou comentário machista óbvio. É também qualquer comportamento repetitivo que ofende a dignidade, cria um ambiente hostil ou prejudica a saúde do trabalhador. Pode ser verbal (piadas “inofensivas” sobre gênero ou aparência), físico (toques indesejados) ou psicológico (isolamento, humilhações públicas). A legislação brasileira, através da Lei nº 13.467/2017 (Reforma Trabalhista) e da Convenção 190 da OIT, reconhece isso como um direito fundamental violado.

E as consequências?

Elas são múltiplas e devastadoras, começando pelo impacto imediato no dia a dia profissional.

Primeiro, pense na saúde. Assédio não é brincadeira; ele pode causar estresse crônico, ansiedade, depressão e até doenças ocupacionais como síndrome de burnout ou transtornos de pânico.


Lembra do Pedro no BBB 26? Após a denúncia, ele foi internado em uma clínica psiquiátrica, com sua defesa alegando que a Globo omitiu um diagnóstico prévio. Surto? Machismo? Ou simplesmente o resultado de um ambiente que normaliza comportamentos tóxicos?

No trabalho, vítimas relatam insônia, perda de apetite e até tentativas de suicídio. A Justiça do Trabalho reconhece isso como dano moral, obrigando empresas a arcar com tratamentos médicos e indenizações que podem chegar a centenas de milhares de reais. Em um caso recente no TST (Tribunal Superior do Trabalho), uma funcionária que sofreu assédio sexual ganhou R$ 200 mil de indenização, mais afastamento remunerado para tratamento psicológico.

Mas o dinheiro não é o único preço.

Há a rescisão de contrato, muitas vezes forçada pela própria vítima que não aguenta mais o ambiente tóxico. Ou pior: a demissão por justa causa do agressor, que pode virar um processo trabalhista longo e desgastante.

Algumas empresas já enfrentaram escândalos assim, com multas da Justiça e campanhas públicas de reparação.

E o BBB 26 nos mostra exatamente isso: Pedro desistiu do programa para fugir das consequências, mas fora da casa, a polícia investiga importunação sexual, um crime previsto no artigo 215-A do Código Penal, com pena de até 1 ano de prisão. Imagine isso no seu emprego: um colega ou superior sendo preso por assédio, e você testemunhando tudo em um depoimento judicial. Não é ficção; é realidade para milhares.

Agora, reflita: por que isso acontece tanto?

Parte é cultura (machismo enraizado, falta de educação emocional). Parte é poder (quem manda acha que pode tudo). Mas o grande culpado é a impunidade. Muitas empresas ignoram denúncias, temendo “baderna” ou processos. Resultado? Vítimas sofrem sozinhas, enquanto agressores continuam atuando. A Reforma Trabalhista trouxe avanços, como a obrigatoriedade de canais de denúncia anônimos, mas ainda falta fiscalização. Em 2025, o Ministério Público do Trabalho registrou mais de 5 mil ações por assédio, com condenações que somaram R$ 50 milhões em indenizações. E o pior: 70% das vítimas são mulheres, segundo estudos da CUT (Central Única dos Trabalhistas).

Voltando ao BBB 26, o caso de Pedro e Jordana ilustra perfeitamente como o assédio começa pequeno (um toque, um comentário) e cresce até explodir. Jordana denunciou imediatamente, e o país debateu: é crime?

Sim, e grave. Fora da TV, no mundo corporativo, as vítimas muitas vezes não têm essa visibilidade. Elas enfrentam isolamento, perda de oportunidades e até blacklists profissionais. Mas há esperança: a Justiça está evoluindo. Casos como o da ex-funcionária de uma grande empresa de tecnologia, que venceu um processo histórico por assédio sexual, mostram que a lei protege quem denuncia – e que o preço da impunidade pode ser altíssimo para quem comete o erro de subestimar a força de uma vítima que decide falar.

O TST tem jurisprudência sólida: assédio é configurado quando há repetição e intenção de ofender, independentemente de testemunhas.

E você? Já passou por algo assim? Ou conhece alguém que passou?

Pense no impacto emocional: a sensação de vulnerabilidade, o medo constante, a perda de confiança no ambiente de trabalho. É como se o emprego, que deveria ser fonte de realização, virasse uma prisão.

E se você pudesse transformar essa dor em força? Em ação?

Denunciar não é fraqueza; é coragem. Certas organizações têm políticas anti-assédio que funcionam, com treinamentos obrigatórios e comissões investigativas. No Brasil, sindicatos como a CNT (Confederação Nacional dos Trabalhistas) oferecem apoio gratuito.

Quais as consequências trabalhistas concretas?

Quando o assédio se configura como doença ocupacional (e sim, depressão, ansiedade e burnout podem ser considerados assim), a vítima tem direito a uma série de benefícios do INSS. O primeiro é o auxílio-doença, que é concedido quando o trabalhador precisa se afastar por mais de 15 dias. Em 2025, foram 4 milhões de afastamentos no Brasil, sendo os transtornos mentais uma das principais causas. O valor corresponde a 91% do salário de benefício, e o período de afastamento pode se estender por meses.

Se a situação for mais grave, com sequelas permanentes que impeçam o retorno ao trabalho, entra em cena a aposentadoria por invalidez. Aqui, o trabalhador recebe 100% do salário de benefício, mas precisa comprovar através de perícia médica que realmente não tem mais condições de exercer qualquer atividade laboral. É um caminho difícil, mas possível quando o assédio deixa marcas profundas.

Agora, preste atenção neste ponto crucial: quando o assédio é caracterizado como acidente de trabalho (sim, doenças psicológicas podem ser equiparadas a acidentes pela Lei 8.213/91), os direitos se multiplicam. Primeiro, há a indenização por danos morais e materiais, que pode ser fixada em valores bem superiores aos casos comuns. Segundo, a empresa é obrigada a fazer o depósito do FGTS durante todo o período de afastamento, algo que não acontece no auxílio-doença comum. Terceiro, vem a estabilidade pós-afastamento: o trabalhador não pode ser demitido sem justa causa por 12 meses após o retorno. E quarto, se houver sequelas que reduzam a capacidade laboral, há direito ao auxílio-acidente, um benefício mensal vitalício correspondente a 50% do salário de benefício, onde o segurado pode trabalhar e receber do INSS ao mesmo tempo.

Além disso, o trabalhador tem direito à inversão do ônus da prova em alguns casos, à indenização por danos estéticos (quando o sofrimento psicológico afeta a aparência) e à garantia de emprego durante o processo de recuperação. São direitos que muitas vítimas desconhecem, mas que fazem toda a diferença na hora de reconstruir a vida.

O que o BBB 26 nos ensina é exatamente isso: comportamentos tóxicos começam pequenos, quase imperceptíveis, e evoluem para consequências graves. Um toque “inocente”, uma piada “sem maldade”, um comentário “despretensioso” – é assim que começa. E quando não há denúncia, quando o ciclo de impunidade se perpetua, o resultado pode ser uma conta salgada para todos os envolvidos: para a vítima, que perde saúde e emprego; para o agressor, que enfrenta processos criminais e trabalhistas; e para a empresa, que arca com indenizações milionárias e danos à reputação.

Denunciar não é apenas um ato de coragem… É uma ferramenta fundamental para quebrar esse ciclo. É o que garante que direitos trabalhistas sejam respeitados, que benefícios do INSS sejam concedidos, e que a Justiça possa atuar. Sem denúncia, o assédio continua invisível, e as vítimas continuam sofrendo em silêncio.

As consequências legais são claras: indenizações por dano moral (média de R$ 50 mil, segundo o TST), afastamento remunerado, multa à empresa e até prisão para o agressor. Mas o verdadeiro custo é humano: vidas destruídas, famílias afetadas. O BBB 26 nos lembrou disso, mas o trabalho é onde o assédio realmente deixa cicatrizes profundas.

Então, que tal refletir: seu ambiente é seguro? Você está preparado para agir se vir algo errado?

Surpreendentemente, o assédio não afeta só vítimas diretas. Ele contamina toda a empresa, reduzindo produtividade em até 20%, segundo estudos da Organização Mundial da Saúde. Pense nisso: um ambiente tóxico custa mais do que salários; custa inovação, motivação e até clientes. Empresas que ignoram isso pagam caro. Mas aquelas que investem em prevenção (treinamentos, códigos de conduta) prosperam. É uma escolha simples: tolerar ou combater.

Em caso de dúvida, procure um advogado especialista de sua confiança. Porque o silêncio pode custar caro, mas a ação pode salvar vidas (e carreiras). Vamos transformar o que aconteceu no BBB 26 em lição para o mundo real? Agora, está com você.

Tenho direito, doutor?

Tem como propósito esclarecer de forma clara o juridiquês (ou “juridiquês”), explorando em diversas áreas do Direito, especificamente Civil, Tributarista, Trabalhista e Previdenciário.

Do BBB 26 ao seu trabalho: quando assédio vira uma conta salgada- Will insert post title.

Dr. Tiago Faggioni Bachur
É advogado, professor e especialista em Direito Previdenciário. Atua na defesa dos direitos sociais, com foco em benefícios e revisões do INSS, BPC/LOAS e planejamento previdenciário. Confira outros textos do autor clicando aqui.

Publicar comentário

Verified by MonsterInsights