A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) alertou o governo federal para o crescimento das importações predatórias no setor, os impactos da política tarifária adotada pelos Estados Unidos e as barreiras impostas pela Índia aos produtos brasileiros. O tema foi discutido em Brasília, com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin.
Participaram do encontro o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, a economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da entidade, Priscila Linck, além do secretário do MDIC, Uallace Moreira, e da secretária de Comércio Exterior (Secex), Tatiana Prazeres.
A principal pauta da reunião foi o avanço das importações de calçados, que cresceram 22,5% em dólares ao longo de 2025, atingindo o maior nível da série histórica iniciada em 1997. Segundo a entidade, o aumento tem exercido forte pressão sobre a produção nacional e o nível de emprego no setor.
De acordo com Haroldo Ferreira, o crescimento das importações de calçados supera com ampla margem o desempenho das importações da indústria de transformação, que avançaram 8,6%, e das importações totais do país, que cresceram 6,7% no mesmo período.
“O setor calçadista vem sendo impactado de forma mais intensa do que a média da economia, sobretudo pela concorrência desleal de produtos asiáticos”, afirmou. A Abicalçados projeta que esse movimento deve se intensificar ao longo de 2026.
Segundo a entidade, o aumento das importações está diretamente ligado à política tarifária adotada pelos Estados Unidos. O chamado “tarifaço”, aplicado a produtos de diversos países — especialmente asiáticos —, tem provocado a realocação dessas exportações para outros mercados, entre eles o Brasil.
Dados da Abicalçados indicam que, após a adoção das chamadas tarifas recíprocas, em abril de 2025, as importações brasileiras de calçados originários da Ásia cresceram mais de 26% entre abril e dezembro, ritmo mais que o dobro do registrado antes da medida.
“Além da queda nas exportações, já que os Estados Unidos são o principal destino do calçado brasileiro, o setor enfrenta uma invasão de produtos asiáticos no mercado doméstico”, destacou Ferreira.
Outro ponto abordado na reunião foi o acesso restrito ao mercado indiano, considerado estratégico diante das mudanças no comércio internacional. O principal entrave é a exigência da certificação BIS, norma compulsória que impõe processos complexos e custos elevados aos exportadores brasileiros.
Em 2025, as exportações de calçados do Brasil para a Índia somaram apenas 160 mil pares, queda superior a 60% em relação a 2022, período anterior à vigência da norma.
No mesmo intervalo, a balança comercial do setor com o país asiático tornou-se significativamente desfavorável. Em 2024, as importações brasileiras de calçados indianos superaram em mais de vinte vezes as exportações, gerando um déficit de US$ 13,8 milhões.
Como proposta, a Abicalçados defendeu o avanço de um Acordo de Reconhecimento Mútuo (MRA) entre Brasil e Índia, que permitiria o reconhecimento de laboratórios brasileiros homologados pelo Inmetro.
Da Redação
Foto: Divulgação
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