Mais da metade dos partos no Brasil são cesárias. Dados da Organizacao Mundial da Saude (OMS) e do Banco Mundial apontam que nações como República Dominicana, Brasil, Egito e Turquia registram índices superiores a 50% dos partos realizados por cirurgia.
A OMS recomenda que a proporção de cesarianas fique entre 10% e 15%, percentual considerado suficiente para atender situações em que o procedimento é clinicamente necessário. Acima disso, segundo a entidade, não há evidências de redução adicional na mortalidade materna ou neonatal.
No Brasil, a taxa média gira em torno de 55%, mas na rede privada o índice pode ultrapassar 80%. Para a obstetra Mariana Lopes, professora de ginecologia e obstetrícia em São Paulo, o cenário envolve múltiplos fatores.
“Existe uma combinação de questões culturais, organização do sistema de saúde e até conveniência logística. A cesariana é uma cirurgia segura quando bem indicada, mas não deve substituir o parto normal sem necessidade clínica”, afirma.
O pesquisador em saúde pública Ricardo Mendes explica que o fenômeno não está restrito ao Brasil.
“Na América Latina e em partes do Oriente Médio, há uma medicalização maior do parto. Em alguns contextos, a cesárea é vista como sinônimo de modernidade ou de maior segurança, mesmo quando não há indicação médica”, diz.
Especialistas apontam que o crescimento das cesarianas também está relacionado ao medo da dor, à possibilidade de agendamento prévio do parto e a questões jurídicas.
“Há profissionais que optam pela cirurgia para reduzir riscos de processos judiciais, principalmente em sistemas onde a judicialização da medicina é elevada”, acrescenta Mendes.
Por outro lado, países como Holanda e nações nórdicas apresentam taxas inferiores a 20%, reflexo de políticas públicas que priorizam o parto vaginal e o acompanhamento por equipes multiprofissionais.
“Modelos que fortalecem o pré-natal, a atuação de enfermeiras obstétricas e a educação da gestante tendem a reduzir intervenções desnecessárias”, explica Mariana Lopes.
Apesar dos índices elevados em alguns países, os médicos ressaltam que a cesariana é fundamental quando há indicação clínica, como sofrimento fetal, placenta prévia ou risco à vida da mãe. O problema não é a cirurgia em si, mas o excesso sem justificativa médica. O desafio é equilibrar acesso e indicação correta.
A discussão sobre as taxas de cesárea envolve não apenas escolhas individuais, mas também políticas de saúde, cultura e organização dos serviços. Para especialistas, o debate precisa avançar com base em evidências científicas e informação qualificada para gestantes e profissionais.
Da Redação
Foto: Freepik
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