Há um momento inevitável na vida em que a pergunta deixa de ser “o que eu quero fazer?” e passa a ser “para que eu fui feito?”. Essa mudança de eixo marca a passagem da curiosidade juvenil e vale uma reflexão para a seriedade da vocação.
Não se trata mais de escolher apenas uma profissão com base nas simples preferências, mas de discernir um chamado verdadeiro.
Olavo de Carvalho dizia, com a franqueza que lhe era própria, que “a vocação é a coisa principal na vida, porque a maior parte do nosso tempo será gasta trabalhando”. Se não há sentido no trabalho, dificilmente haverá sentido no restante. Mas ele próprio fazia a correção necessária: “realizar-se não é sentir prazer o tempo todo”.
A vocação não é um spa emocional, onde nossas forças são restauradas, pelo contrário é o local onde nos doamos, nos gastamos. Ela é o eixo de vida. O homem moderno foi educado a buscar satisfação.
Entretanto nem sempre fora assim.
Para os antigos, viver bem era ordenar a própria existência a um bem maior do que si mesmo. Depois com o surgimento e evolução da prática e pensamento cristão, isso se torna ainda mais radical. A medida da vocação não é o prazer, nem o dinheiro, nem o reconhecimento: mas o amor por aquilo que vale mais do que a própria vida.
O ápice dessa verdade está na figura de Jesus Cristo. Pregado na cruz, Ele não estava ali por prazer, tampouco por interesse. Estava por amor. E é precisamente por isso que a cruz se torna o símbolo mais profundo da vocação: doar-se por aquilo que é maior do que a si mesmo.
A vocação autêntica sempre terá algo de sacrificial, não no sentido mórbido, ou suicida, mas no sentido de oferecer a própria vida a um bem que a transcende, com a intenção reta e única em servir, ou seja, se dispor para outros usufrua.
Como uma mãe em puerpério, que mesmo diante de suas inúmeras dores – físicas, emocionais e psicológicas – escolhe durante todo o dia amar e zelar pela pequena vida que gerastes. E o bebê recém-nascido é beneficiado pelo sacrifício silencioso e inigualável daquela que lhe deu a vida, no seu sentido mais verdadeiro.
Essa mesma compreensão ecoa na tradição filosófica e espiritual de diversas maneiras. Agostinho de Hipona, ao narrar sua inquietude interior, conclui que o coração humano só se acalmará quando repousar em Deus. Quando o homem encontrar aquilo para o qual fora criado e chamado, o trabalho deixa de ser apenas esforço punitivo, e torna-se expressão de amor ordenado. Porque o trabalho, em última instância, é o local por excelência de transformação do mundo e de si mesmo.
A vocação, portanto, não é sinônimo de conforto. É sinônimo de sentido. É aquilo que organiza o sofrimento, disciplina o tempo e confere unidade à vida real.
Quem a encontra não necessariamente trabalha menos, mas trabalha com mais inteireza. Como já dizia São Josemaria Escriva: “Insisto, na simplicidade do teu trabalho habitual, nos detalhes monótonos de cada dia, tens que descobrir o segredo – para tantos escondido – da grandeza e da novidade: o Amor”. No fundo, a pergunta vocacional é simples e terrível: o que há de tão valioso que você aceitaria sofrer por isso? O que há de tão verdadeiro que você não abandonaria, mesmo que custasse prestígio, dinheiro ou segurança? Aquilo pelo qual você estaria disposto a gastar a vida — e, se preciso, perdê-la — é a pista mais segura do seu chamado.
Num mundo que oferece mil possibilidades e poucas direções, redescobrir a vocação é redescobrir a hierarquia dos amores. E, como sabiam os antigos e os santos, a vida só encontra unidade quando se ordena a algo que a supera, que a ultrapassa. A vocação começa quando o homem deixa de perguntar apenas “o que me agrada?” e passa a perguntar, com seriedade: o que me foi confiado?
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.
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