Eu tenho certeza de que, em sua infância ou adolescência, você percebia — assim como eu — que, quando seus pais brigavam, a casa ficava insegura e parecia que as coisas estavam prestes a se perder, como se faltasse chão onde os pés pudessem pisar. Tenho certeza de que, hoje, você tem essa mesma percepção quando pensa no Brasil, porventura pelas más decisões políticas e ideológicas que sua história carrega, assim como pela polarização atual do país, onde ninguém mais se vê fora das caixinhas denominadas como esquerda e direita.
É o puro reflexo da mentalidade brasileira, na qual se precisa estar indubitavelmente dentro de um grupo para sentir-se parte de algo, uma vez que nossa identidade, história e heróis nos são passados de modo unilateral, para não dizer insignificante. Como se não soubéssemos, de fato, quem somos. O próprio George Orwell dizia: “A maneira mais eficaz de destruir um povo é negar a ele o próprio entendimento da sua história.”
Uma vez sem consciência histórica, cada sujeito vê-se órfão, como um garotinho abandonado pela própria família que, diante de qualquer vislumbre de possibilidade de ser amado ou adotado por alguém, se lança, pois está desesperado por amor, por paternidade que o proteja, por maternidade que o afague.
Essa postura do Brasil em sempre estar em busca de um pai mostra o quanto ainda é como criança: pequeno, frágil, imaturo e constantemente iludido.
“Verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte.”
Com o advento do operário que conquistou a faixa presidencial, o povo encontrou quem os tiraria da pobreza e os faria, de uma vez por todas, um povo feliz.
Já na vez do capitão convertido, não foi diferente: encontraram, então, alguém que lhes daria armas e segurança, para enfim ser uma terra onde as leis e a justiça reinariam.
Terminaram na mesma — para não dizer pior —: inseguros, pobres e escravos de uma burocracia estatal que não para de crescer e dominar cada vez mais a vida social e privada de cada sujeito brasileiro.
E, de bandeja, todo o povo ganhou um cisma, um corte profundo: a real polarização nacional, que se iniciou de modo político, mas que tem tomado proporções salgadas, com consequências doloridas para ambos os lados.
Em O Príncipe, um dos escritos mais famosos de Nicolau Maquiavel, ele analisa como conflitos internos podem ser usados politicamente. Ele observa que governantes e potências frequentemente se mantêm no poder explorando divisões entre grupos, facções e interesses rivais. A lógica implícita é: um povo dividido oferece menos resistência organizada.
Com Júlio César e sua expressão latina “divide et impera” (“dividir para governar”), tornou-se um princípio político clássico atribuído à prática romana: manter grupos rivais separados para evitar a união contra o poder central.
Agora vamos à Alemanha, com o pensamento de Karl Marx. Ele analisou como os conflitos entre classes estruturam a sociedade e como as elites podem manter domínio quando os trabalhadores permanecem fragmentados. (É óbvio que seus objetivos não eram os melhores.)
Enfim, ao estudar regimes totalitários, entende-se que o isolamento social e a quebra dos vínculos comunitários tornam as massas mais manipuláveis — algo próximo da polarização moderna que ocorre em muitos países e, de maneira espetacular, aqui no Brasil.
A ideia central aqui não é ficar na reflexão política, mas fazer você, caro leitor, compreender o quanto ainda está se deixando levar por ondas insignificantes ideológicas e políticas, sendo forçado constantemente a omitir opinião sobre temas e assuntos que nunca estudou ou sequer pensou. Por isso quero relembrá-lo: a grande tentação é se perder em meio à enxurrada de ideologias disseminadas tanto de modo formal quanto pelos mais de mil videozinhos rápidos que você viu só hoje.
Busquei deixar claro aqui quais são os objetivos em dividir e polarizar a cultura tão rica e bela do Brasil, um povo tão diverso, com características e costumes diferentes, mas que não deixa de se unir em questões profundas e que são parte constituinte de sua identidade: a herança indígena, a influência europeia, a presença africana, a religião cristã. Cada uma dessas raízes não representa fragmentação, mas contribuição para a formação do rosto brasileiro.
A herança indígena nos legou uma relação orgânica com a terra, trazendo o senso de pertencimento ao território e uma sabedoria prática sobre convivência com a natureza. Ao falar disso, sei que, como eu, você sente sua necessidade de, de alguma forma, estar conectado ao cosmo e à criação.
Já a influência europeia — especialmente portuguesa — ofereceu estrutura institucional, língua comum e um arcabouço jurídico que permitiu unidade nacional em meio a um território continental. Se hoje falamos a mesma língua de norte a sul, isso não é um simples detalhe: é elemento de coesão histórica.
Como muitos insistem em dizer, a presença e permanência africana não foi apenas força de trabalho explorada, mas força cultural. Ritmo, resistência, música como parte do cotidiano, na culinária e na expressão popular. E um ponto que ressalto aqui é a realidade de que há no Brasil uma capacidade singular de transformar dor em cultura e sofrimento em beleza — e isso deve muito à contribuição africana.
E, por fim, a religião cristã — essencialmente católica —, por sua vez, ofereceu o eixo moral e simbólico que unificou o imaginário nacional: a ideia de dignidade da pessoa, de caridade, de perdão, de comunidade. Por outro lado, as estruturas físicas da sociedade, como hospitais, escolas, faculdades, orfanatos, asilos, igrejas e incontáveis outras obras. Mesmo quem hoje se diz distante da fé vive imerso em categorias morais que foram moldadas por séculos de cristianismo e usufrui de sistemas e estruturas formuladas pela Igreja.
A identidade brasileira não nasce da pureza, mas da integração… O poder de soma que o Brasil carrega é assustadoramente positivo: qualquer estrangeiro que aqui chega consegue tanto se sentir em casa como ter espaço, culturalmente falando. A grandeza do Brasil não está em negar suas diferenças, mas em conseguir fazer delas convivência. Polarizar é amputar essa memória comum. Unir é reconhecer que somos fruto de encontros — muitos deles dolorosos — que, apesar das contradições, geraram uma cultura viva, resiliente e profundamente humana. Dividir essa herança é enfraquecer o que nos sustenta. Reconhecê-la, portanto, é fortalecer aquilo que nos mantém, apesar de tudo, como um só povo.
Por isso, afaste-se de grupelhos que buscam cada vez mais segregação e fechamento; essas pessoas tendem a adoecer e transmitir essa doença para aqueles que estiverem próximos.
Estejam atentos.
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.
As opiniões defendidas pelos colunistas colaboradores e publicadas no Portal Pulsar Notícias não, necessariamente, refletem às opiniões do portal.
Ronaldo Grama Valente
Parabéns Gabriel, o texto é muito coerente e elucidativo.
1 comentário