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VOCÊ tem CULPA na GUERRA

“Que horror essas guerras!” “O ser humano está perdido.” “Vão começar outra guerra de novo?”

Atualmente, frases como estas são ouvidas em todos os lugares: escritórios, mesas de jantar, corredores de escolas, igrejas, bares e até mesmo em grupos de crochê. O que muitos não param para pensar é que tudo isso que envolve soberba, domínio, mortes e injustiças acontece em um lugar mais próximo do que cada um de vocês, caros leitores, pode imaginar.

Como assim? Eu tenho culpa na guerra entre EUA e Irã?

Não apenas naquela que aparece nos noticiários, com armas, discursos e fronteiras, mas na guerra silenciosa que você alimenta diariamente. Existe uma tendência confortável de imaginar o mal sempre fora de nós: nos governos, nas ideologias, nos conflitos distantes. Contudo, o mal que está no mundo também está em você. Ele se manifesta nas pequenas infidelidades diárias, nos erros que você insiste em esconder, nas omissões que você justifica e nas palavras que você sabe que ferem, mas, ainda assim, pronuncia. O mal que aparece às claras na história humana não nasce de repente; ele amadurece, muitas vezes, na sombra dos atos cotidianos que cada um prefere não enxergar.

É fácil condenar a violência quando ela assume grandes proporções. Difícil é perceber que a mesma lógica das guerras se encontra em atitudes banais: a incapacidade de pedir perdão, o prazer silencioso em ver o outro fracassar, a indiferença diante da dor alheia e a dureza constante nas relações mais próximas. Não são atos espetaculares, mas são sementes. O sujeito se acostuma a pequenas desordens interiores, aprende a conviver com elas e, pouco a pouco, perde a sensibilidade moral.

Aqui surge o movimento do mal em cada ser humano. Veja: aquilo que era exceção torna-se hábito; o hábito transforma-se em caráter; e o caráter, quando multiplicado em muitos, forma a cultura.

Observe as guerras domésticas. O marido que responde com desprezo à esposa, não por um grande motivo, mas por uma irritação acumulada. A esposa que trata o marido com sarcasmo, minando lentamente o respeito. A mãe que perde a paciência com o filho por algo próprio da infância, reagindo com uma dureza que revela mais seu cansaço interior do que a gravidade da situação.

Essas pequenas rupturas diárias não parecem graves isoladamente, mas constroem um ambiente onde o outro deixa de ser alguém a ser amado e passa a ser alguém com quem você declara guerra. A lógica da convivência vai sendo substituída pela lógica do confronto.

A guerra, em grande escala, é apenas a ampliação desse mesmo movimento. Quando o ser humano se habitua a justificar suas pequenas agressividades, torna-se incapaz de reconhecer limites; assim, aos poucos, o mal passa a ser tolerado como algo comum, como parte de si. E aquilo que é tolerado no indivíduo encontra terreno fértil para crescer na coletividade, nos grupos em que este sujeito está inserido, em cada ambiente. Por isso, dizer que você também tem culpa na guerra não é exagero retórico, mas uma constatação antropológica: a desordem social nasce da desordem interior de cada pessoa.

O problema é que poucos estão dispostos a essa análise. É mais fácil apontar culpados externos do que confrontar as próprias incoerências. No entanto, a paz não começa em tratados diplomáticos — onde se assume um compromisso por meio de assinaturas e declarações formalizadas —, mas na disposição concreta de cada pessoa em combater o mal dentro de si. Enquanto o indivíduo insistir em esconder suas pequenas falhas, justificando-as como irrelevantes, continuará colaborando, ainda que indiretamente, para um mundo onde a violência encontra espaço.

Reconhecer isso não leva ao pessimismo, mas à coragem de se comprometer com atos concretos e reais. Porque você entenderá que, enquanto ficar no seu “mundo interior” vivendo uma vida paralela, escondendo tudo de todos, sendo alguém lindo às claras, mas podre às escondidas, saberá que estará cultivando o mal.

Comece a falar com seus amigos íntimos sobre suas dificuldades, sobre seus erros e vacilos, como ensinara Teresa d’Ávila: “O demônio sai pela boca”. Dê risadas daquilo que antes escondia, seja por vergonha ou por astúcia, como dizia o santo do cotidiano. Aprenda a encontrar naturalidade nos atos imperfeitos que, por medo, antes escondia. Só podemos superar aquilo que primeiro aceitamos. E qual seria a melhor ferramenta simbólica de aceitação do que o riso?!

Cada esforço sincero para ordenar a própria vida contribui, silenciosamente, para uma cultura menos beligerante. A guerra que explode no mundo é, em grande parte, a soma das guerras que os homens se recusaram a resolver dentro de si.

Coragem! Estamos no mesmo lado da trincheira.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Quanto mais FÁCIL sua vida, mais FRACO você fica!- Will insert post title.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.

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