O problema não está nos OUTROS

Recentemente, ao assistir aos jogos da Seleção Brasileira, tornou-se evidente uma constatação: o futebol costuma ser um espelho generoso da vida humana. Enquanto a torcida se desgasta analisando a força dos times adversários, as táticas estrangeiras ou o peso das camisas rivais, o diagnóstico real se impõe de forma muito mais interna. O verdadeiro desafio do Brasil não está em quem está do outro lado do campo. O problema reside no próprio time: na falta de amadurecimento das jogadas, na ausência de uma identidade clara de jogo, na deficiência da disposição mental e tática em campo e na incapacidade de coordenar o talento individual em favor de um conjunto harmônico.

Essa dinâmica dos gramados ilustra uma verdade incômoda, mas essencial, que rege também as relações humanas: a maior parte das dificuldades com as pessoas tem sua origem em nós mesmos, e não nos outros.

Assim como um time desorganizado culpa a retranca adversária pelos próprios passes errados, o ser humano possui a tendência crônica de projetar no próximo as próprias deficiências de “jogo”. Transfere o peso das frustrações, da falta de paciência ou das expectativas irreais para os ombros de quem cruza seu caminho, poupando-se do esforço do autoexame.

Na filosofia clássica, Platão já alertava para o perigo de enxergar apenas as sombras da realidade e tomá-las como verdade absoluta. Nas relações humanas, o outro frequentemente funciona como essa projeção. Quando alguém reage de maneira desproporcional ao comportamento alheio, raramente responde apenas à atitude em si, mas ao eco que ela produz em suas próprias carências, inseguranças ou falhas de caráter. O “adversário” externo é apenas o cenário em que a desordem interior se manifesta.

Para que um time vença, precisa passar pelo que Aristóteles chamava de transição da potência para o ato. Todos possuem a potência para a virtude, para a paciência e para a liderança nas relações, mas essa capacidade somente se realiza por meio do hábito e do amadurecimento interior. Se não se cultiva a própria “disposição em campo” — isto é, a maturidade emocional e intelectual —, qualquer interação humana tende a transformar-se em um conflito perdido antes mesmo do apito final.

Parar de culpar os “times adversários” da própria vida exige uma mudança concreta de postura. Se a raiz do problema está em si mesmo, é exatamente ali que a solução deve ser aplicada.

Antes de criticar a reação do outro, convém perguntar:

A comunicação foi realmente clara?

A postura adotada foi agressiva ou defensiva?

Conflitos repetitivos com pessoas diferentes costumam ser um forte indício de que existe uma falha recorrente na própria forma de agir. Mudar a abordagem, desenvolver a capacidade de escuta e aprender a dominar os próprios impulsos quase sempre produz resultados mais eficazes do que exigir maturidade dos outros.

O comportamento alheio é uma variável que ninguém controla. A própria resposta, porém, permanece sob domínio de cada pessoa.

Será que o Brasil chegará longe na próxima Copa? A resposta pertence ao futuro.

Já a vida de cada um não depende de encontrar pessoas perfeitas pelo caminho para amadurecer, tornar-se mais paciente, mais trabalhador, mais atencioso ou mais amoroso. Para crescer nessas virtudes, basta disposição para trabalhar a si mesmo.

Afinal, quem não governa a si mesmo dificilmente conseguirá manter a harmonia em qualquer campo da vida.


Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

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Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui. Leia outros textos da coluna “Sem Filtros” clicando aqui.

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