Há coisas que só conseguimos enxergar depois que sobrevivemos
Olá músico! Existem coisas que a gente só consegue enxergar depois que sobrevive a elas.
Enquanto estamos dentro de uma fase difícil, nossa percepção fica completamente ocupada pela necessidade de atravessá-la. Não pensamos no que vamos aprender, no que vai mudar em nós ou no que seremos capazes de enxergar depois. Pensamos apenas em conseguir chegar ao dia seguinte.
Eu já vivi isso. Durante dois anos, passei por uma depressão. E, enquanto estava vivendo aquilo, eu não conseguia enxergar nenhum significado naquela experiência. O mundo parecia desmoronar e, muitas vezes, era difícil imaginar que aquela sensação um dia poderia passar.
Mas passou. E quando olhei para trás, percebi que havia coisas que eu só conseguia compreender porque tinha atravessado aquele período.
Passei a reconhecer emoções que antes eu ignorava. Passei a perceber limites que antes eu ultrapassava. Passei a prestar mais atenção em mim e nas pessoas ao meu redor. E, principalmente, passei a entender que aquilo que sentimos em determinado momento não necessariamente define aquilo que seremos para sempre.
Isso me lembra um conceito que conheci no livro Antifrágil, de Nassim Nicholas Taleb.
Taleb fala sobre coisas que não apenas resistem ao caos, à pressão e à incerteza, mas que se beneficiam deles. O exemplo clássico é diferente de algo simplesmente resistente: o resistente permanece igual depois de sofrer um impacto; o antifrágil pode sair transformado e, em determinadas condições, melhor do que estava antes.
Gosto dessa ideia, mas acho importante fazer uma distinção. Não precisamos romantizar o sofrimento. A dor não é necessária para que alguém se torne uma pessoa melhor.
Uma experiência difícil pode deixar marcas profundas e, para algumas pessoas, pode ser devastadora. Não existe beleza obrigatória no sofrimento.
Mas existe algo que podemos fazer com aquilo que nos aconteceu. Podemos transformar uma experiência em consciência.
Podemos olhar para uma fase difícil e, depois que ela passa, perguntar: o que essa experiência me ensinou sobre mim que eu não sabia antes?
Talvez seja aí que exista uma espécie de antifragilidade humana. Não em sair de cada dificuldade mais forte de maneira automática, mas em conseguir construir alguma coisa nova a partir dela.
Uma pessoa que passou por uma perda pode aprender a valorizar de outra maneira o tempo que tem. Alguém que passou por uma doença pode começar a olhar para o próprio corpo com mais cuidado.
Quem atravessou uma crise pode descobrir limites que nunca tinha percebido.
E quem esteve muito tempo perdido dentro de si pode, depois de encontrar algum caminho de volta, passar a reconhecer sinais que antes não conseguia enxergar.
A vida não nos devolve necessariamente a quem éramos antes do caos. Às vezes, ela nos apresenta a uma versão que não existia antes dele.
E talvez seja por isso que algumas coisas só conseguimos enxergar depois que sobrevivemos a elas. Não porque precisávamos sofrer.
Mas porque, estando do outro lado, conseguimos finalmente olhar para aquilo que aconteceu com alguma distância.
Hoje, quando penso naqueles dois anos, não gostaria de vivê-los novamente. Não desejo aquela dor para mim e não acredito que alguém precise sofrer para aprender a viver.
Mas também não apagaria o que aprendi. Porque aquela versão de mim que atravessou tudo aquilo deixou alguma coisa para a pessoa que sou hoje.
E talvez essa seja uma das partes mais estranhas e bonitas da existência: nós não escolhemos tudo o que nos acontece, mas podemos participar daquilo que fazemos com o que nos acontece.
Algumas experiências nos quebram. Outras nos transformam. E, em alguns momentos, só conseguimos descobrir qual das duas aconteceu depois que a tempestade passou.
Até a próxima reflexão.
Reflexões da Dani
Tem como objetivo retratar o cotidiano do músico de forma verdadeira e leve, compartilhando experiências e inquietações que surgem entre ensaios, palcos, estudos e silêncios…

Dani Oliveira
Graduada em Gestão Financeira, especialista em Tráfego Pago, apaixonada por Marketing e COO da Musixe. Ela trabalha para aproximar alunos da música de forma acessível, humana e prática, valorizando tanto a técnica quanto a vivência artística.
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