Você sabe qual é a música mais lenta do mundo?
Em um planeta onde tudo acontece em tempo real, onde a sociedade está cada vez mais conectada, acostumada em resumir um assunto em 280 caracteres no X (antigo Twitter) ou 500 caracteres no Threads, vídeos são consumidos em segundos, uma obra do século XX nos provoca até hoje e instiga a reflexão: o que estamos fazendo com o tempo que temos?
A música “As Slow As Possible” (Tão Lento Quanto Possível) foi composta por John Cage (1912–1992) — uma das mentes mais visionárias (e excêntricas) da música experimental, rompeu com praticamente todas as convenções musicais de sua época. Ele acreditava que o som — qualquer som — era música. Sua obra mais conhecida, talvez, seja 4’33”, uma peça em que o músico não toca absolutamente nada por 4 minutos e 33 segundos, deixando que o “silêncio” e os ruídos do ambiente componham a experiência.
Mas se 4’33” é a música do silêncio, As Slow As Possible é a música do tempo.
A música mais lenta do mundo
Composta originalmente para órgão em 1985, As Slow As Possible é exatamente o que o título propõe: uma peça que deve ser tocada tão lentamente quanto for possível. E foi exatamente isso que um grupo de músicos, teóricos e amantes de Cage decidiu levar ao extremo.
Em 2001, um projeto ambicioso teve início em Halberstadt, uma pequena cidade na Alemanha. Lá, na igreja de St. Burchardi, começou a execução mais lenta da história da música. A performance completa está planejada para durar *639 anos — isso mesmo, seis séculos e pouco mais.
O número não foi escolhido ao acaso. Em 1361, foi instalado em Halberstadt o primeiro órgão conhecido com a estrutura moderna de teclado. Ao iniciar a performance em 2001, calcularam 639 anos até então — e decidiram que esse seria o tempo que a peça duraria.
Assim, a música teve seu primeiro som tocado em 5 de setembro de 2001. Antes disso? Um silêncio absoluto de 17 meses. O primeiro acorde só foi tocado em 2003.
Como funciona essa performance?
O órgão da igreja foi adaptado especialmente para a peça. Não há músicos constantemente ali — os tubos são sustentados por pesos e mecanismos que mantêm as notas tocando durante anos. Cada mudança de acorde é um evento mundial. Literalmente. Pessoas viajam de todos os cantos do planeta para ouvir… um novo acorde.
A propósito, o acorde mais recente foi alterado em 5 de fevereiro de 2024. O próximo será tocado apenas em 5 de agosto de 2026. E, acredite, a última nota da peça será ouvida em 2640. Pois é, muito depois de termos morrido. Nossos trinetos, tataranetos e pentanetos terão esta oportunidade apenas.
Essa performance não é só uma peça musical — é uma escultura temporal. Um lembrete existencial de que *nem tudo precisa ser instantâneo. Num mundo de feeds que se renovam a cada segundo, há um canto em uma igreja alemã onde o tempo passa devagar demais para qualquer notificação.
A lentidão de As Slow As Possible é quase um protesto. Ela nos convida à reflexão profunda sobre a natureza do tempo, da paciência, da permanência e da impermanência. Em 2640, ninguém vivo hoje estará lá para ouvir a última nota. E, no entanto, a música continuará — como um legado, uma ideia, uma provocação.
É irônico — e ao mesmo tempo poético — que uma obra musical dependa do tempo e, ainda assim, se desenrole em uma escala muito além da vida humana. O tempo da música deixou de ser relevante, deixou de ser dos relógios e passou a ser da eternidade.
John Cage, ao propor As Slow As Possible, talvez não imaginasse uma execução de 639 anos. Mas ele certamente sabia que a arte pode — e deve — nos fazer repensar o mundo. Enquanto você lê este texto, um acorde está ecoando, sustentado por pesos, em uma antiga igreja da Alemanha, diante de visitantes silenciosos, devotos da lentidão.
Talvez o som que ressoe em 2600 ainda seja uma extensão do que Cage começou em 1985. Sabia dessa?
Thiago Rocioli/Da Redação
Foto: Freepik
vorbelutrioperbir
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