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Quando “ouvir o coração” vira desculpa para fugir da responsabilidade

Você já deve ter ouvido esse papo: “Escute seu coração”, com a suposta afirmação de que essa atitude fosse autêntica ao ponto de trazer a felicidade ou ao menos ser capaz de colocar o sujeito na decisão correta. Pessoas que se justificam, ou justificam suas atitudes ou até mesmo as atitudes dos outros colocando a desculpa no ato de seguir a voz do coração; isso está cada vez mais comum —  posso dizer que é como uma epidemia —  ao ponto de soar socialmente como uma pessoa madura.

Acompanhei um caso em que um senhor casado, se separava da sua esposa, dizendo que só estava sendo coerente com seu coração. Depois foi descoberto que “a voz do coração” tinha nome, CPF e vinte anos a menos que sua esposa. E assim, esses sujeitos explicam escolhas impulsivas, rupturas repentinas ou até mesmo comportamentos questionáveis apelando para essa suposta fidelidade interior: “Fiz porque senti” ou “não podia ir contra meu coração”. O mais absurdo disso tudo é que essa retórica é sedutora, porque transfere a responsabilidade da decisão para algo que parece profundo, íntimo e incontestável.

Os filósofos antigos eram mais honestos sobre isso. Para eles, o coração não era o templo da verdade interior, mas a sede das paixões: o lugar onde moram impulsos que podem distorcer nossa percepção sobre a realidade. Aristóteles chamava as paixões de movimentos da alma que precisam ser educados, porque sem um olhar atento e sem razão elas nos arrastam para extremos: ora para a imprudência, ora para a covardia.

Ou seja: ouvir o coração sem discernimento não é liberdade, é entregar o leme do barco ao vento mais aleatório e sem direção que aparecer, porque diferente da compreensão clara, as paixões — o que conhecemos hoje por sentimentos — são inconstantes e passageiras, sem muita concretude.

O ponto aqui não é calar o coração ou tratá-lo como inimigo, mas colocá-lo sob contraste, confrontá-lo com a razão, com a realidade e com as consequências concretas das escolhas. O problema não é sentir, mas absolutizar o sentimento. É preciso ter cautela e distinguir quando uma inclinação interna aponta para algo verdadeiro/consciente e quando ela é apenas fuga, carência afetiva, medo de sustentar uma decisão difícil ou vaidade disfarçada de intuição.

Esse discernimento não nasce espontaneamente, ele exige trabalho interior. É aqui que a filosofia se revela menos como discurso abstrato e mais como prática, uma terapia da realidade que nos leva a separar o que sentimos do que é verdadeiro.

Sem esse esforço, “escutar o coração” vira apenas uma forma sofisticada de romantizar o próprio engano — e chamar impulso de sabedoria. Por isso, corra desse discurso.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

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Gabriel Pinheiro (@gabrielpinheiro.si )
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”

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