Quando a festa perde a graça
Nestes dias de festas de fim de ano, torna-se evidente o quanto, sobretudo o Natal, está distante de seu significado original. Em grande parte das casas brasileiras, a celebração tem se reduzido à bebida pela bebida e à comida pela comida. Na prática, não é apenas o Natal que sofre esse esvaziamento: celebrações culturais e religiosas, em geral, vêm sendo despojadas de seu sentido mais profundo.
Essa superficialidade não se restringe a uma data específica. Ela se infiltra em diversas dimensões da vida: casamentos, aniversários, formaturas, festas juninas e tantas outras ocasiões. Tudo vira pretexto para bebedeira — o que transforma o ambiente em algo cansativo — ou para uma autoexposição quase ritualística, como uma veneração pessoal. Não é raro receber convites de aniversário com a foto do anfitrião em destaque, acompanhados do pedido para que cada convidado leve tudo o que compõe a festa. E, caso alguém não compareça — por qualquer motivo —, corre o risco de ser punido com olhares atravessados e silêncio social, como se tivesse faltado a um culto de autoadoração.
Os ritos, no entanto, sempre tiveram papel central na vida humana. São eles que preservam o sentido e a verdade enquanto o tempo passa e as gerações se sucedem, sustentando a identidade pessoal e coletiva de um povo. Platão já afirmava que os ritos e celebrações possuem força formativa: moldam o caráter e ordenam a vida para o bem. Para o filósofo, o hábito educa, pois permite a internalização de princípios que orientam a existência e favorecem o amadurecimento humano.
O que vemos hoje, porém, é justamente o oposto: os ritos permanecem, mas o essencial é deslocado para a periferia, enquanto elementos secundários ocupam o centro. As formaturas são um exemplo claro. Ritos importantes de passagem e amadurecimento intelectual tornaram-se, muitas vezes, grandes estúdios fotográficos e festas de valores exorbitantes, com pouco ou nenhum espaço para reflexão ou discernimento vocacional.
Talvez o caso mais grave — e o que produz consequências mais profundas — seja o das celebrações de casamento. O que deveria ser um compromisso real e definitivo, assumido diante de Deus, com entrega livre, total, fiel e fecunda, frequentemente se reduz a um evento social e a uma experiência sensorial. Enquanto isso, o sentido de eternidade e transcendência vai sendo silenciosamente corroído.
Poderíamos passar horas listando exemplos desse esvaziamento de ritos, símbolos e celebrações. No fundo, porém, a constatação é simples e inquietante: hoje se celebra muito, mas se significa pouco. E, quando o rito morre, a experiência humana empobrece — ainda que o calendário permaneça cheio.
Para voltar ao essencial, é preciso resgatar o que realmente importa. Isso só acontece quando aprendemos a valorizar o que é simples, aparentemente pequeno, mas que fará falta quando o tempo cobrar seu preço. Quer viver bem o Natal? Olhe para a família de Nazaré — onde o Menino Deus nasceu: estavam presentes pai, mãe e filho, sem excessos, sem extravagâncias, na simplicidade, no recolhimento e na alegria.
Voltemos ao essencial.
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro (@gabrielpinheiro.si )
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”
Rayssa
“Hoje se celebra muito, mas se significa pouco.” ❤️🩹
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