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Promessas de Ano Novo (até o Carnaval a gente vê!)

Mais comum do que IPVA, IPTU, CRLV, IRPF e outras centenas de siglas criadas para dar seriedade ao imposto sem fim com o qual o brasileiro precisa se preocupar no início do ano; mais comum do que parente inconveniente sondando nossas casas e nossa paz; mais típico do que a preocupação com materiais, uniformes, roupas e calçados para a garotada que volta às aulas; mais costumeiro do que as reclamações chatas daquele colega de trabalho… são as promessas, metas e resoluções de início de ano — como queira chamar.

É quase um traço de personalidade do brasileiro — e, sejamos honestos, de boa parte do mundo — começar o ano listando 386 metas, como se a virada do calendário tivesse poderes místicos de transformação. Em poucos dias, o sujeito promete ser mais saudável, organizado, espiritualizado, produtivo, gentil, focado e financeiramente responsável, tudo ao mesmo tempo. O problema não está no desejo de ser melhor, mas na ilusão de que uma enxurrada de promessas substitui decisão, disciplina, constância e trabalho duro. No fim, o ano muda, a lista cresce, e o velho hábito de abandonar o essencial continua intacto.

Tudo o que existe — seja material, ideal ou comportamental — possui raízes que lançam as bases para sua existência. Ou seja, nada do que conhecemos ou sentimos surgiu absolutamente do nada, como num estalar de dedos. Quero dizer que esse hábito de desejar novos hábitos tem um fundamento, que veremos agora.

Desde o moderno filósofo, físico e matemático francês René Descartes, com o famoso cogito, ergo sum, fomos lentamente convencidos de que o pensamento antecede e fundamenta a existência, como se bastasse pensar corretamente para que a realidade se alinhasse. Essa inversão sutil — mas profunda — deslocou o eixo da vida concreta para o mundo interior, fazendo-nos acreditar que a força do pensamento tem primazia sobre a experiência, sobre aquilo que conhecemos como realidade.

Passamos a confiar excessivamente na intenção, no bom desejo e na ideia bem formulada, enquanto o trabalho diário, a responsabilidade silenciosa e o comprometimento com o que é árduo foram sendo colocados em segundo plano. O resultado é uma geração que planeja muito, sente muito, pensa muito… mas sustenta pouco; tem dificuldade em continuar o que começou, simplesmente não consegue ir até o fim — isso, se começar. Como se pensar em mudar fosse quase o mesmo que mudar de fato, esquecendo que é a existência vivida — com esforço, repetição e renúncia — que educa o pensamento, e não o contrário.

Antes disso ainda, como que fazendo um prognóstico, dizia o grande sábio Bernardo: “o inferno está cheio de boas intenções”, justamente para retratar esse maldito costume de achar que ter dó do pedinte é o suficiente para te fazer uma boa pessoa; ou que sentir pena do sofrimento real de alguém viciado em drogas te coloca no hall dos santos; ou ainda que dizer “é complicado” para o cunhado que vive uma dificuldade familiar te transforma em alguém caridoso.

Estamos, aos poucos, esquecendo que o que transforma é o trabalho. A única coisa capaz de mudar hábitos, maus costumes e a própria realidade é a atitude: a decisão clara e efetiva de que precisamos fazer algo, colocar a mão na massa. Agir para a transformação de qualquer coisa ou área da sua vida pode começar na cabeça, mas necessariamente precisa terminar nas mãos. Caso contrário, tudo será lindo como em um sonho maravilhoso quando você fechar os olhos, mas, ao abri-los, será como um mundo de sombras, onde a desgraça e a maldade dominam, deixando toda a sua vida em preto e branco, sem sentido, vitalidade ou esperança — essa é a realidade de muitos.

Por isso, tenha uma ou duas pequenas metas e seja verdadeiro consigo mesmo ao apontar suas resoluções para 2026. Tudo é possível — desde que um sujeito de 47 anos que nunca jogou basquete na vida não tenha como meta ser o maior jogador de basquete da história.

Seja realista, vai!

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

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Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.

1 comentário

comments user
vorbelutrioperbir

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