Pare de ser feliz!
Vivemos sob a pressão silenciosa de parecer bem, produtivo e emocionalmente maduro, sempre com respostas perfeitas e posturas adequadas aos olhos de todos. A felicidade deixou de ser um horizonte e virou uma obrigação moral, e esse tema toca, principalmente, em um dos grandes problemas da modernidade: a negação do sofrimento e a culpa por sentir tristeza.
Diversas vezes escutei de pessoas próximas as seguintes frases: “vai dar certo”, “já deu certo”, na verdade, essas expressões são verdadeiros atos de covardia, pois, por não saber a verdade, o sujeito lança palavras mentirosas com o suposto objetivo de anular o poder da realidade: as surpresas e inconstâncias. Ou seja, tenta apagar a possibilidade de tudo dar errado, são como pais de uma criança que é ensinada o tempo todo a fugir da dor e das negações da vida, com “sins” omissos, dando ao filho tudo o que este lhes pede, como se a vida fosse uma serva dele.
E o despertador às 6h da manhã? O choro do bebê às 2h30 após um longo dia de trabalho? O raspão que o vizinho deu no seu carro? E aquele colega de trabalho que te treina para ter uma paciência de elefante? Será que esses pequenos incômodos são passíveis de alteração? Não importa onde você esteja, o sofrimento estará; seja em um nível menor ou maior.
Entretanto, longe de nos fazer mal ou nos torturar, esses pequenos sofrimentos são como doses diárias de realidade que nos fazem colocar os pés no chão e entender que o mundo não é nosso, mas que precisamos dominá-lo. Essas doses são a causa do nosso amadurecimento, pois, afinal, só a responsabilidade diante dos desafios da vida é capaz de nos tornar homens e mulheres melhores.
Essa mentalidade de facilidades, na qual a alegria é utilizada como produto, infiltrou-se na modernidade de tal modo que até mesmo afetou a forma de educar. Ensinaram-nos que precisamos, a todo instante, fugir dos pequenos sofrimentos diários ou ainda das dores que perpassam a nossa existência. E o mais macabro disso tudo: pregam como se fosse possível sanar todos esses desafios, na ideia de que preciso viver minha vida como em um episódio ensolarado e radiante de Teletubbies, com cores vibrantes, doces saborosos e uma vida plenamente feliz.
Têm nos empurrado a felicidade à força para nos colocar em um constante estado de vigília: estou feliz? É aqui que quero estar? Essa pessoa me deixa feliz? Estou seguindo meu coração?
Se o sofrimento, como dizia Viktor Frankl, pode se tornar um lugar de sentido quando é assumido com consciência, então a tristeza deixa de ser um erro a ser corrigido e passa a ser uma experiência humana necessária. O problema é que vivemos numa cultura que trata qualquer sinal de dor como fracasso pessoal. A obrigação de estar bem, sorridente e motivado o tempo todo nos impede até mesmo de compreender quem somos.
Ao negar espaço ao sofrimento ou à tristeza, não os eliminamos — apenas os empurramos para o fundo do baú. A cultura da alegria constante não nos salva da dor; ela nos torna incapazes de atravessá-la, e é justamente aí que adoecemos.
Então entenda, caro leitor, não há mal algum em estar triste, ou passando por um momento difícil: é só a vida acontecendo.
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro (@gabrielpinheiro.si )
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”
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