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Arena Porão traz espetáculo “Lesados” nesta sexta

O espetáculo “Lesados” realiza nova apresentação nesta sexta-feira (27), na Arena Porão, na Vila Tibério, com sessões às 9h e às 14h, seguidas de debate com elenco e direção. A atividade integra a circulação gratuita voltada a estudantes do Ensino Médio da rede pública de Ribeirão Preto (SP).

Inspirado na tradição do teatro do absurdo, que tem em Samuel Beckett uma de suas principais referências, “Lesados” constrói sua dramaturgia a partir da repetição, do silêncio e de ações mínimas. Em cena, dois personagens sem nome permanecem em uma estação indefinida, cercados por malas, relógios e objetos cotidianos. A espera – por algo que não se concretiza – estrutura a narrativa e amplia o campo simbólico da encenação.

A montagem aposta em uma estética direta, com poucos elementos cênicos: banco de madeira, malas, paletós, chapéus, celulares e relógios organizam o espaço e dialogam com a fisicalidade dos intérpretes. A iluminação concentra a ação no banco onde se desenvolve a maior parte da peça, enquanto o desenho de som interfere de maneira sutil na dinâmica da cena, com ruídos como trem, chuva e mosquito atravessando a espera.

Além da apresentação, o projeto prevê conversa com o público ao final de cada sessão, como parte da proposta de formação de público e reflexão sobre os temas abordados.

Contemplado pelo Chamamento Público nº 006/2024 – Incentivo a Projetos de Produção, Circulação e/ou Difusão Artística no Município de Ribeirão Preto, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, o projeto prevê oito sessões entre fevereiro e março, além de oficinas formativas a serem realizadas posteriormente nas escolas participantes.

Sala de aula em diálogo

Na apresentação de estreia, realizada no Teatro Santa Rosa no dia 13 de fevereiro, estudantes da Escola Estadual Eugênia Vilhena de Morais participaram das sessões e do debate. Para a professora Lidiane Silva, que leciona redação e língua portuguesa, o espetáculo dialoga com conteúdos trabalhados em sala de aula.

“O teatro contribui para os alunos perceberem a teoria na prática e a refletirem sobre a própria vida, sobre as ações deles na escola, no mundo”, afirmou. Ela também observa que os temas mobilizam os jovens. “Eles precisam pensar em quem eles são, no que eles querem, para onde eles vão. Na minha percepção, tudo isso foi provocado a eles na peça”, completou.

Entre os estudantes, a identificação apareceu em diferentes momentos da encenação. Yasmim Nogueira destacou o gesto de reorganizar a mala em cena. Segundo ela, o movimento de “organizar e reorganizar, abrir a mala e tirar as coisas de dentro e recolocar” traduz algo presente em sua vivência.

“Às vezes nós estamos tentando buscar e organizar um sentimento que só temos que tentar seguir em frente”. Manuela Ianes Silva da Costa relacionou a atmosfera de espera à própria realidade. “Quando eles estavam naquela ansiedade, de o trem estar vindo e não chegar nunca, de ficar esperando alguma coisa acontecer e nunca se concretizar”, explicou. “Você sabe o que tem que fazer, mas não faz, talvez por medo ou por querer que as coisas cheguem até você e por isso acaba ficando parado no mesmo lugar”, completou.

Trajetória

A primeira montagem de “Lesados” aconteceu em 2004, pelo Grupo Bagaceira de Teatro, no Ceará. Em Ribeirão Preto, a encenação foi montada por Gracyela Gitirana em 2011 e, desde então, participou de festivais e mostras no Brasil e no exterior, incluindo o FRINGE (Curitiba), o Festival Nacional de Teatro de Ribeirão Preto, o Festival Dago Menezes (Itu/SP) — onde recebeu os prêmios de Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Atriz — e o Festival Internacional de Teatro y Danza de Iquique, no Chile, em 2024.

Sinópse

Em uma estação qualquer, um banco feito de ripas de madeira abriga um homem cansado, de óculos quadrados, acompanhado por malas de viagem. De uma delas saem relógios de estimação; da outra, uma mala-casa, emerge uma mulher, de cabelos bagunçados sob uma touca preta e pantufas gastas. Lesados pela acomodação e pela apatia, os dois personagens não conseguem avançar — nem física, nem simbolicamente. Esperam que algo aconteça, engolidos pela solidão, pela repetição e pela falta de coragem de dar um passo adiante.

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