O SILÊNCIO é um ABSURDO!
O Sábado Santo é, talvez, o dia mais difícil para o homem moderno. Nele, não acontece nada. Existe apenas o silêncio, como um intervalo, uma parada. E é exatamente isso que incomoda. O sujeito até suporta a dor da Sexta-feira da Paixão e a alegria do Domingo da Ressurreição, mas não suporta o intervalo. Não suporta o tempo em que não há resposta, em que não há movimento, em que tudo parece suspenso — mesmo sabendo que haverá um fim.
A verdade é que nós desaprendemos a esperar. Tudo hoje é imediato. Se a internet demora, surge a irritação. Se alguém não responde à mensagem, a ansiedade bate forte. Se a solução não aparece rápido, a frustração é profunda. O silêncio virou sinônimo de vazio. Por isso, a frase de Blaise Pascal continua tão atual: ‘Todos os problemas da humanidade derivam da incapacidade do homem de ficar sentado, sozinho e em silêncio’. O Sábado Santo obriga exatamente a isso, e muitos fogem.
Veja como isso aparece na vida prática: você entra no carro e já liga o rádio; chega em casa e liga a TV, mesmo sem assistir; vai dormir com o celular na mão. Não conseguimos ficar cinco minutos sem estímulo. E não é por necessidade, mas porque o silêncio começa a revelar coisas: cansaço, conflitos, decisões difíceis e erros não resolvidos. O barulho externo serve para abafar o barulho interno.
Todo o imaginário do homem e da mulher ocidentais é formulado por símbolos e significados cristãos; tudo o que olhamos podemos compreender melhor ao entendermos nossas raízes. Toda experiência social tem por base a fé, por mais que não pareça. Tendo dito isso, podemos continuar.
O Sábado Santo mostra algo curioso: mesmo quando tudo parece parado, algo está acontecendo. Cristo está no sepulcro, aparentemente inativo, mas a tradição afirma que é justamente nesse momento que Ele desce à mansão dos mortos para resgatar os que antes estavam cativos. Essa explicação nos esclarece que, mesmo no silêncio, a obra continua. Isso desmonta a mentalidade de que só há valor quando existe movimento visível. Já dizia a antiga homilia:
‘O que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. […] A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos.’
É no silêncio que a profundidade acontece. O filósofo Sêneca já alertava para isso: ele defendia a contemplação como condição para uma vida fundada na verdade. Sem momentos de recolhimento, o sujeito vira refém das circunstâncias. Reage a tudo, perde a medida, perde a paciência. E aqui a coisa fica bem concreta.
O pai chega do trabalho cansado, não para um minuto e já entra respondendo ‘atravessado’; o problema não é o filho. A mãe vive o dia inteiro correndo, sem nenhum momento de recolhimento, e explode com a criança por algo pequeno; o problema não é a criança. O casal não conversa, não reflete, não faz pausas; e, a cada dia, a convivência vira uma sequência de pequenas irritações. Falta ‘Sábado Santo’ dentro de casa.
Nós queremos pular etapas. Queremos sair direto da Sexta-feira para o Domingo. Mas a maturidade nasce no Sábado — no tempo em que você não entende, mas permanece. É neste momento que surge a paciência. Nada a supera: nem mindsets, nem grandes habilidades ou dons extraordinários. Nada supera a paciência aqui.
Talvez o grande ensinamento seja simples e incômodo: o silêncio não é perda de tempo; é o lugar onde a vida se reorganiza. É ali que você percebe o que precisa mudar, a quem precisa pedir perdão, o que deve ser deixado para trás e o que precisa ser assumido. Sem isso, a pessoa vive apenas reagindo, como um ser puramente instintivo, buscando sanar seus impulsos imediatos.
O Sábado Santo, no fundo, é um convite muito prático: pare. Fique em silêncio. Não para produzir, não para consumir, não para ter uma ‘pausa criativa’ ou para se distrair. Apenas para permitir que algo dentro de você mude. Porque, muitas vezes, quando tudo parece parado, é justamente ali que o essencial está acontecendo.
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.
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