Qual é a IDENTIDADE CULTURAL do Brasil?
A Copa do Mundo, unida a inúmeras outras distrações, forma o que o brasileiro chama de identidade cultural. É bela a forma como o Brasil consegue ainda vislumbrar algum tipo de tentativa de resgate de si; e, por outro lado, é triste, para não dizer desanimador, a forma como o brasileiro se engana de distração em distração e chama isso de cultura.
Não sei se você já percebeu a maneira como muitos brasileiros vivem esperando algum evento para não fazer nada, ou um feriado para encher a cara. É como se a identidade cultural do brasileiro dependesse exclusivamente de eventos, que, quanto mais se coloca para fora de si, mais esquece quem um dia foi o Brasil e o que poderia sê-lo um dia, de fato.
Esse fenômeno pode ser compreendido à luz do pensamento de Émile Durkheim, especialmente a partir da ideia de fato social. Para Durkheim, existem forças coletivas que moldam o comportamento dos indivíduos independentemente da vontade pessoal, por vezes neutralizada. Ou seja, o sujeito não apenas escolhe viver assim — ele é, em grande medida, conduzido por um padrão social já estabelecido, que, no caso do Brasil, normaliza a fuga da responsabilidade e a busca constante por momentos de ruptura da rotina.
Outro conceito central é o de anomia: um estado de desordem moral em que as normas perdem força e sentido e deixam de orientar a vida do indivíduo. É aí que o cotidiano também perde sentido, o trabalho é visto apenas como obrigação penosa e a vida comum como algo a ser suportado; cria-se, por consequência, o vazio. E esse vazio precisa ser preenchido. O problema é que, em vez de ser preenchido pelo sentido que norteia a vida, ele passa a ser preenchido por estímulo atrás de estímulo. Daí a necessidade quase compulsiva por eventos, festas, feriados — não como celebração, mas como fuga frenética.
Durkheim também fala da “efervescência coletiva”, momentos em que o grupo se reúne e experimenta uma espécie de exaltação emocional compartilhada. Em sua análise original, isso tem um papel importante na maneira como as pessoas vivem em sociedade. No entanto, quando essa euforia se torna o centro da vida — e não um ponto ocasional — ela deixa de fortalecer a sociedade e passa a desorganizá-la. A pessoa começa a viver de picos emocionais, incapaz de sustentar uma vida ordinária com estabilidade e constância.
O resultado é um indivíduo fragmentado: ele é um durante a semana e outro no fim de semana. Um na rotina, outro no evento. Essa divisão impede a construção de uma identidade sólida, de uma personalidade madura. E, sem identidade, não há continuidade histórica, nem pessoal, nem cultural. O Brasil, nesse sentido, não se perde apenas por fatores externos, mas pela incapacidade de seus próprios indivíduos de sustentarem uma vida com coerência.
No fundo, o que se observa não é apenas um hábito cultural, mas um sintoma social profundo: a substituição do sentido pela excitação. E, como Durkheim apontaria, quando a sociedade perde seus referenciais internos, ela não apenas muda — ela se perde.
E a forma como o brasileiro anda é realmente como um andarilho sem direção, com sede e com fome… Às vezes até literalmente.
Caro(a) leitor(a), quero fazer uma pequena pausa para direcionar a palavra a você. Muitas vezes, você deve sentir um tom melancólico e pouco esperançoso com o qual reflito em meus textos. A proposta da coluna é justamente ser SEM FILTROS e trazer reflexões quase que intrusivas, às vezes ácidas, que tanto nos incomodam como abrem um espaço para pensarmos em coisas e pontos que não nos seriam possíveis em outros ambientes. Tendo dito isso, afirmo: aqueles que me conhecem pessoalmente sabem que sou expansivo, alegre e um verdadeiro portador da esperança.
Continuando nosso texto…
Quem de vocês nunca ouviu ou assistiu algum gringo dizendo a algum brasileiro que viu pela primeira vez algo assim:
“Brasil? Carnaval, futebol e churrasco”
É como se só tivéssemos festas para oferecer, e, quando se recordam de pessoas, são figuras relacionadas com esses mesmos ambientes citados anteriormente.
Não possuo nada contra essas pessoas e ambientes, mas não me conformo em me contentar que sejam estas as nossas referências e reconhecimentos.
Como dizia o professor Olavo:
“Todos os males do Brasil […] nascem da ausência, na nossa cultura, de um elemento essencial à vida humana: a busca da verdade. No Brasil, quase ninguém sabe o que é isso, nem muito menos tenta saber, porque ninguém sente falta daquilo cuja existência ignora.”
Olavo de Carvalho descrevia a cultura brasileira como profundamente decadente, marcada por um “horror ao conhecimento” e pelo domínio de uma burocracia acadêmica que impedia o pensamento original. Ele a caracterizava por um forte viés utilitarista, em que a educação é vista apenas como meio de ganho financeiro e diplomação, e não como formação intelectual, resultando em uma “miséria espiritual” e na ausência de contribuições intelectuais originais ao mundo.
O que isso tudo quer dizer para eu e você hoje?
O caminho para o ajuste começa em duas frentes:
- humildade em reconhecer nossa mediocridade;
- busca sincera pela verdade.
Resumindo, é justamente o que, desde o ano 500 a.C., o grande Sócrates ensinava.
Você faz bem para o Brasil quando começa buscando o Bem para você mesmo.
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.
As opiniões defendidas pelos colunistas colaboradores e publicadas no Portal Pulsar Notícias não, necessariamente, refletem às opiniões do portal.
Publicar comentário