Existe algo profundamente revelador nos momentos em que nos sentimos incapazes.
A maioria das pessoas acredita que se conhece, mas quase sempre conhece apenas a própria versão confortável: quando dormiu bem, quando o corpo responde, quando a mente está clara, quando existe disposição e ânimo. O problema é que ninguém conhece verdadeiramente a si mesmo apenas nos dias bons.
Basta uma gripe mais forte, uma virose qualquer, dois dias de febre ou um simples mal-estar para tudo mudar de proporção. Aquilo que parecia banal se torna difícil. Levantar-se da cama parece um esforço absurdo. Trabalhar exige energia. Pensar exige energia. Até conversar, às vezes, cansa.
E então surge uma percepção quase humilhante: o quanto deixamos de estar inteiros até mesmo quando estamos completamente saudáveis. Porque, nesses momentos, percebemos algo desconfortável: o corpo debilitado de hoje faria muito com a energia que desperdiçamos ontem.
Talvez uma das maiores ilusões do homem moderno seja acreditar que está cansado quando, na verdade, está apenas disperso. Existe uma diferença enorme entre exaustão e desordem interior. Muita gente vive reclamando da própria rotina, mas entrega horas inteiras do dia ao celular, à distração constante e ao consumo vazio. Diz que não possui tempo, mas desperdiça energia com coisas de que sequer se lembrará no dia seguinte.
Quando adoecemos, até respirar normalmente parece um privilégio. Caminhar sem dor parece um privilégio. Comer bem parece um privilégio. E é curioso perceber como a ausência devolve valor ao que a presença banalizou.
São Josemaria Escrivá falava muito sobre a santificação das pequenas coisas. E talvez seja justamente aí que muitos fracassam. Porque quase todo mundo espera grandes acontecimentos para mudar de vida, enquanto negligencia aquilo que constrói um homem todos os dias: levantar-se no horário, cumprir deveres simples, estudar sem vontade, trabalhar com atenção, brincar com os filhos, tratar bem a esposa, rezar mesmo no silêncio interior.
A vida humana é construída muito mais por pequenas fidelidades do que por grandes explosões de motivação. O problema é que o homem contemporâneo romantizou demais os próprios sentimentos. Se está motivado, faz. Se não está, adia. E, pouco a pouco, vai se tornando alguém governado pelo humor do momento.
Os antigos entendiam algo que fomos perdendo. Disciplina não era vista como rigidez, mas como formação da alma. Aristóteles dizia que nos tornamos aquilo que repetidamente fazemos. Um homem que constantemente cede ao conforto vai enfraquecendo a própria vontade. E um homem sem vontade firme começa a ser conduzido por qualquer impulso pequeno.
Viktor Frankl observou algo parecido nos campos de concentração. O sofrimento destruía muitos homens, mas o vazio de sentido destruía outros tantos. E talvez seja exatamente isso que aconteça hoje em larga escala. Nem sempre as pessoas estão sofrendo grandes tragédias. Muitas vezes estão apenas vivendo sem direção, anestesiadas, distraídas, ocupadas demais para perceber que estão desperdiçando a própria vida.
É impressionante como alguém consegue passar horas consumindo vídeos curtos, mas não consegue permanecer vinte minutos lendo um bom livro. Como alguém consegue virar a madrugada assistindo a entretenimento, mas não encontra energia para construir algo importante.
E quase sempre o problema não é a falta de capacidade. É a falta de governo sobre si mesmo.
As limitações acabam revelando isso com força. Um simples estado gripal já desmonta nossa falsa sensação de autonomia. Mostra que somos frágeis, dependentes e extremamente limitados. Mas, ao mesmo tempo, também mostra outra coisa: o quanto recebemos diariamente condições extraordinárias e tratamos tudo como se fosse garantido.
Talvez a maturidade comece justamente aí: quando o homem para de esperar perder para finalmente valorizar. Porque a verdade é que nós desperdiçamos saúde como se ela fosse eterna. Desperdiçamos até mesmo o tempo como se ele não tivesse fim.
E só percebemos o valor dessas coisas quando elas começam a nos faltar. No fundo, a grande questão não é o que fazemos quando estamos limitados. A questão verdadeira é outra: por que fazemos tão pouco quando estamos plenamente capazes?
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui. Leia outros textos da coluna “Sem Filtros” clicando aqui.
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