Existe uma doença silenciosa que acomete pessoas de todas as idades, profissões e classes sociais. Ela não provoca febre, não aparece em exames laboratoriais e raramente é percebida por quem a possui. Pelo contrário: quanto mais avançada ela está, menos o sujeito percebe sua presença. Estou falando da convicção de que já se sabe o suficiente.
Não se trata apenas de conhecimento intelectual. Muitas vezes, a pessoa acredita que já compreendeu a vida, que já entendeu os relacionamentos, que já conhece a si mesma, que já domina sua profissão e que não há mais nada de realmente importante para aprender. E é justamente aí que começa sua decadência.
Sócrates, considerado por muitos o pai da filosofia ocidental, tornou-se célebre por uma frase aparentemente contraditória: “Só sei que nada sei”. Muita gente interpreta essa afirmação como falsa humildade ou como um jogo de palavras. Não é.
O que Sócrates havia descoberto era algo profundamente humano: quanto mais alguém conhece a realidade, mais percebe a extensão daquilo que ainda ignora. Os ignorantes costumam ter certezas. Os sábios costumam ter perguntas. Observe uma criança aprendendo. Ela pergunta sobre tudo. Está constantemente aberta à realidade. Quer compreender. Quer descobrir.
Agora observe muitos adultoS: Pararam de perguntar.Pararam de estudar. Pararam de refletir. Pararam de escutar. Acham que já sabem. E quando alguém tenta corrigi-los, imediatamente se defendem. Aristóteles afirmava que todos os homens desejam naturalmente conhecer. Contudo, esse desejo pode ser sufocado pela acomodação. O sujeito aprende o suficiente para sobreviver e passa a acreditar que chegou ao fim da estrada.
Mas a vida não funciona assim. A realidade continua avançando enquanto ele permanece parado.Seu casamento exige novas habilidades. Seus filhos exigem novas virtudes. Seu trabalho exige novos conhecimentos. Seu caráter exige constantes correções. E, ainda assim, muitos insistem em viver como se já tivessem alcançado uma versão definitiva de si mesmos.
É curioso observar como isso aparece nos relacionamentos. Há maridos que acreditam já saber tudo sobre suas esposas. Esposas que acreditam já conhecer completamente seus maridos. Pais que acham não ter mais nada para aprender sobre educação. Profissionais que se julgam experientes demais para ouvir conselhos.
Nesses casos, a pessoa não para apenas de aprender. Ela para de enxergar. O orgulho produz uma espécie de cegueira voluntária. Nietzsche observou algo semelhante ao afirmar que as convicções podem se tornar inimigas mais perigosas da verdade do que as próprias mentiras. Uma mentira pode ser corrigida. Uma convicção absoluta geralmente se protege de qualquer questionamento.
E talvez este seja um dos grandes dramas do nosso tempo. Nunca tivemos acesso a tanta informação. E nunca encontramos tantas pessoas convencidas de que já compreenderam tudo. Bastam alguns vídeos curtos, algumas frases de efeito e algumas opiniões repetidas para que o indivíduo passe a acreditar que domina assuntos que levaram décadas para serem estudados.
O resultado é uma geração cada vez mais informada e cada vez menos sábia. Porque informação não produz necessariamente sabedoria. Sabedoria exige confronto. Exige dúvida. Exige humildade. Exige disposição para reconhecer que talvez você esteja errado. E essa é uma tarefa extremamente difícil. O sujeito que se considera suficiente deixa de crescer. Não porque lhe faltem oportunidades, mas porque acredita não precisar delas. A tragédia não está em não saber.
A tragédia está em não querer mais aprender. É possível encontrar pessoas simples, sem grandes títulos acadêmicos, que continuam crescendo aos sessenta, setenta ou oitenta anos de idade. E também é possível encontrar jovens de vinte e poucos anos que já envelheceram intelectualmente porque decidiram que não precisam mais ouvir ninguém. A diferença entre eles não está na inteligência. Está na postura. Um continua sendo aluno da realidade.
O outro declarou formatura permanente. E a realidade costuma ser implacável com esse tipo de arrogância. Mais cedo ou mais tarde ela apresenta uma situação, uma perda, uma dor, uma falha ou um fracasso capaz de demonstrar o quanto ainda somos pequenos diante da complexidade da existência. Por isso, a verdadeira maturidade não consiste em se tornar alguém que sabe tudo. Consiste em se tornar alguém que permanece ensinável. Sócrates compreendeu isso. Aristóteles viveu isso.
Até Nietzsche, em sua crítica constante às ilusões humanas, reconheceu que o crescimento exige destruir certezas antigas para enxergar mais longe. O homem que acredita ser suficiente interrompe a própria evolução. Já aquele que conserva a humildade de aprender mantém viva a possibilidade de se tornar algo melhor amanhã do que é hoje.
E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que você pode fazer a si mesmo: em qual área da sua vida você já decidiu, silenciosamente, que não precisa mais aprender? Porque é exatamente ali que seu crescimento provavelmente parou.
zes?
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui. Leia outros textos da coluna “Sem Filtros” clicando aqui.
As opiniões defendidas pelos colunistas colaboradores e publicadas no Portal Pulsar Notícias não, necessariamente, refletem às opiniões do portal.
Publicar comentário