Uma das maiores tragédias do mundo moderno não é a mentira. É algo muito pior. É a ideia de que cada um possui a sua própria verdade.
Parece algo bonito à primeira vista. Soa respeitoso, tolerante, moderno e democrático. Afinal, quem sou eu para dizer que o outro está errado? Quem sou eu para questionar aquilo que ele sente, pensa ou acredita?
O problema é que a realidade não funciona assim. Você pode acreditar sinceramente que um copo está vazio, mas, se ele estiver cheio, sua opinião não altera o fato. Pode acreditar que não envelhecerá, que não adoecerá ou que não morrerá. A realidade continuará seguindo seu curso sem pedir autorização às suas convicções.
É justamente aqui que começa o problema da verdade subjetiva: ela transforma opiniões em critérios absolutos. E, quando isso acontece, a pessoa deixa de buscar a verdade para começar a fabricar versões dela.
Platão percebeu esse problema há mais de dois mil anos. Em sua famosa Alegoria da Caverna, homens vivem acorrentados observando sombras projetadas numa parede. Para eles, aquelas sombras são a realidade. São tudo o que conhecem. São suas verdades pessoais.
Mas continuam sendo sombras. A genialidade de Platão está em mostrar que o problema não é apenas estar enganado. O problema é gostar do engano. É preferir a segurança da ilusão ao desconforto da verdade.
E, convenhamos, isso acontece todos os dias. Existe o marido que sabe que está destruindo seu casamento, mas cria uma narrativa para justificar suas atitudes.
Existe a esposa que sabe que está alimentando ressentimentos há anos, mas prefere chamar isso de “autocuidado”. Existe o jovem que sabe que está desperdiçando seu potencial, mas diz para si mesmo que está apenas “vivendo sua verdade”.
A linguagem muda. A realidade permanece. Aristóteles afirmava que a verdade consiste em dizer que aquilo que é, é; e que aquilo que não é, não é. Parece simples. Mas essa simplicidade é justamente o que o homem moderno rejeita.
Porque aceitar a verdade exige algo extremamente difícil: renunciar ao próprio ego. Se a verdade está fora de mim, eu preciso descobri-la. Mas, se a verdade está dentro de mim, basta que eu a invente. Percebe a diferença?
Na primeira situação, existe humildade. Na segunda, existe apenas vontade. E a vontade humana é uma das coisas mais instáveis que existem. Hoje você quer uma coisa. Amanhã quer outra. Hoje sente uma emoção. Amanhã sente o contrário.
Como construir uma vida sólida sobre algo tão variável? É por isso que a verdade subjetiva produz indivíduos cada vez mais inseguros. Paradoxalmente, quanto mais cada pessoa cria sua própria verdade, menos consegue se orientar no mundo.
Sem um referencial comum, tudo se torna relativo. E, por fim, a própria realidade vira opinião. Santo Tomás de Aquino talvez tenha formulado uma das definições mais importantes sobre esse tema. Para ele, a verdade é a adequação da inteligência à realidade.
Observe bem. Não é a realidade que deve se adequar ao que eu penso. Sou eu quem deve adequar meu pensamento à realidade. Parece uma diferença pequena. Mas nela repousa toda a civilização ocidental. Quando o homem passa a acreditar que seus sentimentos determinam o que é verdadeiro, ele rompe com essa ordem.
E, quando rompe com essa ordem, rompe também com a possibilidade de amadurecer. Porque ninguém amadurece confirmando a si mesmo o tempo todo. Amadurecemos quando a realidade nos corrige. Quando descobrimos que estávamos errados. Quando percebemos que nossa opinião não era suficiente.
Quando encontramos algo maior do que nós. O drama do nosso tempo é que muitas pessoas já não querem encontrar algo maior. Querem apenas encontrar a si mesmas. E acabam se perdendo. Veja quantas vezes isso acontece diariamente.
O sujeito destrói a própria saúde porque acredita que seu desejo momentâneo é mais importante do que a disciplina. Outro destrói o casamento porque acredita que sua felicidade imediata é mais importante do que sua promessa. Outro abandona responsabilidades porque acredita que sua realização pessoal é o único critério relevante.
Todos eles possuem justificativas. Todos eles possuem narrativas. Todos eles possuem suas verdades. Mas continuam colhendo consequências reais. Porque a realidade não negocia.
A gravidade não negocia. Assim como o tempo, a morte e a verdade. No fundo, a verdade subjetiva não é uma demonstração de liberdade. É uma tentativa sofisticada de fugir da realidade. E toda fuga tem prazo de validade.
Mais cedo ou mais tarde, a vida apresenta a conta. A pergunta não é se você possui uma verdade. A pergunta é muito mais simples e muito mais difícil: Você está disposto a abandonar suas ilusões quando elas entram em conflito com a realidade?
Porque a verdade não existe para confirmar aquilo que você já pensa. Ela existe para transformar você. E é justamente por isso que ela incomoda tanto.
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui. Leia outros textos da coluna “Sem Filtros” clicando aqui.
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