Existe algo curioso acontecendo no mundo moderno. Nunca falamos tanto sobre salvar o planeta, salvar as florestas, salvar os oceanos, salvar os animais, salvar a economia, salvar a democracia, salvar a cultura, salvar a tecnologia… Mas raramente ouvimos alguém dizer que é preciso salvar o ser humano.
E isso deveria nos causar estranheza. Porque, no final das contas, todas essas coisas só possuem importância porque existem pessoas para contemplá-las, utilizá-las, protegê-las e dar-lhes significado.
Uma floresta não sabe que é uma floresta. Uma montanha não sabe que é uma montanha. Um oceano não contempla sua própria beleza. Mas você contempla.
Você percebe. Você ama. Você sofre. Você recorda. Você projeta o futuro. Você enterra seus pais. Você segura a mão de um filho recém-nascido.
Você escreve poemas, constrói cidades, faz promessas e se pergunta qual é o sentido da própria existência. Existe algo na vida humana que não encontramos em nenhum outro lugar conhecido do universo.
Por isso me causa certo desconforto quando percebo a facilidade com que muitas pessoas colocam a dignidade humana abaixo de quase tudo. Veja como isso aparece no cotidiano. Pessoas defendem animais com enorme entusiasmo, mas mal conseguem suportar um familiar difícil.
Falam sobre amor à humanidade enquanto tratam mal os próprios pais. Publicam frases sobre empatia, mas são incapazes de escutar alguém por quinze minutos sem interromper. Choram por tragédias distantes e ignoram o sofrimento que existe dentro da própria casa.
Algo está fora do lugar. Os gregos já haviam percebido que existe algo singular no homem. Aristóteles dizia que o ser humano é um animal racional. Hoje essa frase parece simples, mas ela possui uma profundidade extraordinária.
O que ele queria dizer é que existe em nós uma capacidade única de compreender a realidade, buscar a verdade e orientar a própria vida segundo aquilo que é bom.
Nenhum cachorro se pergunta se foi um bom cachorro. Nenhum cavalo sofre uma crise existencial aos 40 anos. Nenhuma árvore reflete sobre o significado da própria existência. Mas você faz isso. Porque existe em você algo que aponta para além da sobrevivência.
Platão avançou ainda mais.
Para ele, o homem não vive apenas para satisfazer desejos. Existe uma sede profunda de verdade, beleza e bem. Quando essa busca é abandonada, o sujeito pode até continuar vivo biologicamente, mas começa a morrer interiormente.
E talvez seja exatamente isso que vemos em tantos lugares. Pessoas respirando, trabalhando, consumindo, viajando, produzindo conteúdo, acumulando experiências, mas profundamente perdidas. Não porque lhes falte conforto. Porque lhes falta direção.
E não existe sofrimento maior do que caminhar sem saber para onde se está indo. A tradição cristã elevou essa compreensão a um patamar ainda mais radical. Cada vida humana possui valor em si mesma.
Não por sua utilidade, não por sua inteligência, produtividade ou riqueza. Mas simplesmente porque é humana. Isso muda tudo. Muda a forma como enxergamos uma criança com deficiência., como enxergamos um idoso debilitado, um pobre ou alguém que fracassou.
Porque o valor daquela pessoa não está naquilo que ela produz, mas está naquilo que ela é. E aqui surge um problema moderno.Nós começamos a medir pessoas por desempenho.
Vale quem produz, quem lucra, quem gera resultados. O restante parece descartável. Mas, é interessante um detalhe: basta uma visita a um hospital para perceber a fragilidade dessa lógica. Ali estão empresários, professores, atletas, médicos, juízes, artistas e trabalhadores comuns.
Todos reduzidos à mesma condição humana: dependentes., vulneráveis e por fim: mortais. E é justamente a consciência da morte que revela aquilo que realmente importa. No fim da vida ninguém pede para rever o saldo da conta bancária.
As pessoas pedem pelos filhos, pela esposa, pelo marido, pelos amigos, por aquelas pessoas que estiveram com elas no trilhar da própria história, aqueles que elas amaram. Porque, no fundo, sabemos que a grande riqueza da existência nunca esteve nas coisas. Sempre esteve nas pessoas.
Talvez seja por isso que as maiores alegrias da vida também sejam humanas. O primeiro abraço de um filho. Uma amizade verdadeira. Um casamento fiel. O reencontro com alguém querido. Uma conversa que muda uma vida. Uma reconciliação depois de anos de distância.
Nenhuma dessas coisas pode ser comprada. E todas elas possuem valor infinito. Por isso acredito que uma das grandes missões do nosso tempo é reaprender a olhar para o ser humano.
Porque quando a vida humana deixa de ocupar o centro, todas as outras coisas acabam perdendo seu lugar também. E quando isso acontece, a sociedade inteira se desorienta.
Afinal, de que adianta conquistar o mundo inteiro se esquecermos justamente aquilo que existe de mais valioso nele? As pessoas.
E entre todas elas, aquela que o encara agora do outro lado deste texto: Você.
Sem Filtros
É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui. Leia outros textos da coluna “Sem Filtros” clicando aqui.
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