Ninguém tem OBRIGAÇÃO de cuidar do que é SEU!

Existe uma frase que se tornou comum nos últimos anos, principalmente entre casais mais jovens: “Eu não tenho rede de apoio”. Antes de qualquer julgamento, convém compreender o contexto. Existem, de fato, situações dramáticas: mães solo, pais abandonados, famílias que moram longe dos avós, pessoas que enfrentam doenças ou dificuldades financeiras. Nesses casos, pedir ajuda não é apenas legítimo; muitas vezes, é necessário.

Mas não são essas situações que estão em questão. O que se observa é uma mudança silenciosa na forma como muitos passaram a enxergar a responsabilidade pelos próprios filhos. Parece que, para algumas pessoas, a rede de apoio deixou de ser um auxílio e passou a ser uma obrigação dos outros. Os avós precisam buscar na escola. A tia precisa ficar com a criança no fim de semana. A madrinha precisa levar ao médico. O vizinho precisa ajudar. Os amigos precisam compreender.

E, quando alguém diz “não posso”, imediatamente surge um sentimento de indignação. “Como assim?”. “Cadê minha rede de apoio?”. Talvez a pergunta correta seja outra: Em que momento os outros passaram a ter a obrigação de cuidar daquilo que é exclusivamente responsabilidade dos pais?

Ter filhos sempre exigiu renúncia. Aliás, essa talvez seja a palavra que melhor define a maternidade e a paternidade. Menos sono, menos tempo, menos tempo livre. Quem gera uma nova vida não deixa de viver, mas passa a viver de outro modo. E isso não deveria causar surpresa. É exatamente isso que significa trazer uma criança ao mundo.

Observa-se, inclusive, um fenômeno curioso. Muitos casais se preparam financeiramente para ter um filho. Fazem enxoval, montam o quarto, pesquisam carrinhos, escolhem escolas antes mesmo de a criança nascer e trocam até de carro.

Mas poucos preparam o próprio coração para amar de fato e até mesmo para perder uma parte da liberdade — que, no fundo, é quase insignificante diante da beleza que são os filhos. Há uma regra da existência: amar requer perda. E isso não porque os filhos sejam um castigo, mas porque amar alguém implica responsabilidade e entrega de si. E essas coisas custam.

Vive-se em uma época que vende a ideia de que é possível continuar vivendo exatamente como antes, apenas acrescentando uma criança à rotina. Não é possível. A criança não entra na agenda dos pais. Ela se torna a agenda. É da natureza das coisas. A criança não é um detalhe. A partir do momento em que surge, precisa ser o centro em torno do qual as energias e a organização da família passam a girar.

Há outro detalhe que quase ninguém comenta. Quando alguém espera que outras pessoas assumam constantemente aquilo que lhe pertence, corre um risco enorme: deixar de amadurecer. Os avós são um bom exemplo. Eles podem ajudar? Claro. Que bom quando ajudam.

Que privilégio para os netos poderem estar próximos dos avós. Mas ajudar não significa assumir. Os avós já educaram seus filhos. Já cumpriram a missão deles.

Os netos são um presente, não uma segunda maternidade ou uma segunda paternidade obrigatória. Há avós que têm medo de dizer “não”. Aceitam cuidar dos netos todos os dias, mesmo cansados, mesmo doentes, porque sentem culpa. Aos poucos, deixam de viver a própria velhice para sustentar escolhas que não foram deles.

Isso não é rede de apoio. Com toda sinceridade, isso adoece os avós, a família, o pai, a mãe e também a criança.

Existe uma diferença enorme entre ajudar alguém e carregar o peso que pertence ao outro. Pais tornam-se pais justamente quando aceitam que existem responsabilidades que ninguém poderá viver por eles. Educar um filho é uma delas. É claro que toda ajuda deve ser recebida com gratidão, mas gratidão jamais deveria se transformar em cobrança. Porque o favor termina exatamente no momento em que passa a ser exigido.

No fundo, o centro da discussão sobre rede de apoio não é apenas quem cuida da criança. Trata-se de como se compreende o amor e de como as pessoas se dispõem a amar. Amar não é dividir o peso para sofrer menos. Amar é aceitar que certos pesos pertencem exclusivamente àquele que assumiu determinada missão.

Amor e responsabilidade estão profundamente ligados. Se um não estiver unido ao outro, ambos se tornam falsos, apenas uma simulação de virtude. É justamente essa responsabilidade que transforma um homem em pai e uma mulher em mãe, porque ninguém amadurece fugindo do peso da própria missão. Amadurece-se exatamente quando se deixa de perguntar quem deveria ajudar e se passa a perguntar se está sendo assumido, com fidelidade, aquilo que verdadeiramente pertence a cada um.

Por isso, é preciso coragem para viver a própria missão. Afinal, a paternidade e a maternidade estão entre as batalhas mais árduas e, ao mesmo tempo, mais belas da existência.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

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Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui. Leia outros textos da coluna “Sem Filtros” clicando aqui.

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