Fascismo, comunismo e socialismo: entenda antes de votar
No próximo domingo (4), cerca de 158 milhões de brasileiros vão às urnas e uma discussão antiga volta a aparecer nas redes sociais: afinal, o que significam expressões como fascismo, comunismo, socialismo, esquerda, direita e totalitarismo?
A questão é relevante porque os termos possuem significados históricos e acadêmicos específicos. Na linguagem cotidiana, porém, eles muitas vezes aparecem como sinônimos de “quem pensa diferente”. O resultado é uma mistura entre ideologia, posicionamento político, regime de governo e comportamento de determinados governos.
O tema ganhou espaço, inclusive, por uma reflexão publicada pelo padre Raphael Romão, da Diocese de Franca, que viralizou. O sacerdote questionou o uso indiscriminado dessas palavras no debate político.
“Meu povo, o que é ser de esquerda? O que é ser de direita? Quais valores o seu político defende e o que você acredita?”, afirmou o religioso, defendendo que o eleitor procure conhecer os conceitos antes de utilizá-los.
A questão é relevante porque os termos possuem significados históricos específicos. Na linguagem cotidiana, porém, eles muitas vezes aparecem como sinônimos de “quem pensa diferente”. O resultado é uma mistura entre ideologia, posicionamento político, regime de governo e comportamento de determinados governos.
Dizer que alguém é “de esquerda” não informa, sozinho, qual é sua posição sobre economia, religião, segurança pública, costumes, propriedade privada, política externa ou liberdade de expressão. Da mesma maneira, ser “de direita” não significa automaticamente defender autoritarismo ou fascismo.
“Vivemos uma época de muita polarização e pouca formação: todo mundo sabe chamar o outro de comunista ou fascista, mas poucos sabem explicar o que comunismo, marxismo, fascismo, esquerda e direita realmente significam. Antes de escolher um lado, é preciso saber do que estamos falando.”, postou o padre no Instagram.
Para compreender o debate, é preciso começar pelo básico.
Fascismo, comunismo e socialismo têm origens diferentes
O fascismo surgiu como movimento político na Itália após a Primeira Guerra Mundial e chegou ao poder com Benito Mussolini, em 1922. Posteriormente, o termo passou a ser utilizado para analisar outros movimentos, especialmente o nazismo alemão, embora os historiadores ressaltem que cada experiência histórica possui características próprias.
O professor emérito de História Moderna Roger Griffin, da Oxford Brookes University, é um dos principais estudiosos contemporâneos do fascismo. Sua definição acadêmica identifica no fenômeno um núcleo de nacionalismo radical associado à ideia de renascimento da nação. A própria universidade destaca sua teoria do fascismo como uma forma revolucionária de ultranacionalismo impulsionada pelo mito de uma “renovação” nacional.
Outro importante estudioso, o historiador Robert Paxton, professor emérito da Universidade Columbia, chama atenção menos para um conjunto fechado de ideias e mais para o comportamento político. Em sua definição, o fascismo envolve a exaltação da unidade nacional, a mobilização de militantes nacionalistas, o abandono de liberdades democráticas e o uso político da violência.
Isso ajuda a compreender uma diferença importante: autoritarismo, conservadorismo, nacionalismo, populismo e fascismo não são automaticamente sinônimos. Um movimento pode defender maior autoridade do Estado ou valores nacionalistas sem, por isso, ser necessariamente fascista. Para utilizar o conceito com rigor, é necessário analisar suas características, práticas e contexto histórico.
O comunismo possui outra origem intelectual. Está diretamente relacionado à tradição marxista desenvolvida por Karl Marx e Friedrich Engels no século XIX. No “Manifesto do Partido Comunista”, publicado em 1848, os autores analisaram a sociedade a partir do conflito entre classes e defenderam a superação da propriedade burguesa dos meios de produção.
Nos textos de Marx e Engels, o objetivo final imaginado para uma sociedade comunista era uma sociedade sem classes. Friedrich Engels, em “Princípios Básicos do Comunismo”, descreveu uma organização econômica baseada na utilização comum dos instrumentos de produção e na eliminação das diferenças de classe.
Na história do século XX, entretanto, o termo comunismo passou a ser associado também aos Estados governados por partidos comunistas, especialmente a União Soviética e outros países que adotaram modelos políticos e econômicos inspirados no marxismo-leninismo. Essa experiência histórica não deve ser confundida automaticamente com toda a tradição teórica socialista ou comunista.
O que é socialismo?
Socialismo é um conceito mais amplo e reúne diferentes correntes de pensamento. Não existe uma única teoria socialista.
A Stanford Encyclopedia of Philosophy, publicação acadêmica da Universidade Stanford, explica que o socialismo é uma tradição extremamente diversificada, com diferentes interpretações sobre economia, propriedade, liberdade, igualdade, solidariedade e democracia.
Em termos gerais, o socialismo questiona a concentração privada dos meios de produção e defende algum tipo de controle social, coletivo ou dos trabalhadores sobre a produção econômica. Mas isso pode assumir formas muito diferentes.
Há, por exemplo, correntes que defendem a transformação da economia por meios democráticos, com eleições, instituições representativas e preservação de direitos individuais. A social-democracia europeia, por sua vez, desenvolveu modelos que mantêm economias de mercado e propriedade privada, mas defendem forte proteção social, serviços públicos e políticas de redução das desigualdades.
Por isso, afirmar simplesmente que “socialismo é comunismo” elimina diferenças históricas e teóricas importantes.
A própria Stanford Encyclopedia ressalta que socialismo não é necessariamente sinônimo de estatismo. Em determinadas correntes socialistas, a propriedade ou o controle social da economia deveria estar submetido à participação democrática dos próprios cidadãos e trabalhadores.
E o que significa ser de esquerda?

“Esquerda” e “direita” não nasceram como nomes de partidos específicos. As expressões têm origem na Revolução Francesa, quando grupos políticos passaram a ocupar lados diferentes na Assembleia.
Com o passar dos séculos, os termos adquiriram significados mais amplos e também diferentes conforme o país e o período histórico.
O Senado Federal, em seu Vocabulário Controlado Básico, registra que a esquerda, na ciência política, costuma estar associada à defesa de maior igualdade social e à preocupação com grupos considerados em situação de desvantagem. O mesmo material ressalta que a direita é um conceito que varia conforme sociedades, períodos históricos e sistemas políticos.
O filósofo e cientista político italiano Norberto Bobbio tornou-se uma das principais referências para essa discussão. Em sua análise, a diferença fundamental entre esquerda e direita está na maneira como cada corrente encara a igualdade e a desigualdade.
A formulação de Bobbio não significa que toda pessoa de esquerda seja socialista ou comunista, nem que toda pessoa de direita seja fascista. Pelo contrário. Seu trabalho procurou justamente mostrar que o espectro político é mais complexo.
O próprio Bobbio também separava a discussão sobre igualdade daquela relacionada à liberdade e à autoridade. Isso permite compreender por que existem correntes democráticas tanto à esquerda quanto à direita e, historicamente, movimentos autoritários em diferentes extremos do espectro político.
O que é ser de direita?

Ser de direita é uma posição no espectro político que defende, de forma geral, a economia de mercado, a valorização da propriedade privada e a menor intervenção do Estado na vida econômica e social.
Essa vertente prioriza a responsabilidade individual e a meritocracia. Na Economia, há o apoio ao livre mercado, à livre iniciativa, às privatizações e à redução de impostos e de burocracia estatal.
A Defesa deste viés político é de um Estado mais enxuto, cujo foco principal seja garantir a segurança e de políticas públicas que garantem o bem comum. É focado na preservação de valores morais tradicionais, da cultura, da religião e da ordem institucional
O que é um regime totalitário?
Totalitarismo é outra coisa. O termo descreve uma forma extrema de dominação política na qual o poder procura ultrapassar o controle do governo e alcançar praticamente todas as dimensões da vida social.
A filósofa Hannah Arendt dedicou parte central de sua obra “Origens do Totalitarismo”, publicada em 1951, ao estudo do nazismo e do stalinismo. A Stanford Encyclopedia of Philosophy destaca que Arendt considerava o totalitarismo um fenômeno político novo, diferente de formas anteriores de tirania, despotismo e ditadura.

Entre os elementos analisados por Arendt estão a ideologia, a propaganda, o terror, a destruição da pluralidade política e a tentativa de submeter a sociedade a uma lógica política única.
Em outras palavras, uma ditadura e um regime totalitário não são necessariamente a mesma coisa. Uma ditadura pode concentrar o poder, eliminar eleições competitivas e perseguir opositores sem necessariamente tentar controlar integralmente todas as dimensões da vida social.
O totalitarismo representa uma forma de dominação ainda mais abrangente. De acordo com a história, o nazismo de Adolf Hitler e o stalinismo soviético são os exemplos centrais analisados por Arendt. Isso não significa que nazismo e comunismo sejam a mesma ideologia. Eles eram profundamente diferentes em seus objetivos, fundamentos e discursos. O ponto analisado por Arendt é a existência de características totalitárias em determinados regimes históricos.
Essa distinção é essencial.
Comunismo não é sinônimo de todo regime autoritário
Outro erro frequente é afirmar que todo governo que se declarou comunista teve exatamente o mesmo funcionamento.
A União Soviética, a China, Cuba, Vietnã e outros Estados tiveram ou têm experiências históricas diferentes, em períodos distintos e com instituições próprias. Mesmo entre pesquisadores que classificam determinados regimes como autoritários ou totalitários, existem debates sobre quando e em que medida essas categorias devem ser aplicadas.
Da mesma maneira, não é correto utilizar “comunista” como sinônimo genérico de qualquer política pública de esquerda.
Um programa de transferência de renda, a existência de universidade pública, a cobrança progressiva de impostos ou a criação de um sistema público de saúde não transformam automaticamente um país em comunista.
Essas políticas podem existir em economias capitalistas e em democracias liberais.
O Brasil, por exemplo, possui uma economia baseada predominantemente em propriedade privada e mercados, mas também mantém empresas estatais, serviços públicos, políticas de transferência de renda e mecanismos de regulação econômica. Uma característica isolada não define todo o sistema político ou econômico de um país.
Fascismo também não é simplesmente “ser de direita”
A relação histórica entre fascismo e extrema-direita é reconhecida em grande parte da literatura especializada, mas isso não significa que qualquer posição de direita possa ser chamada de fascista.
O fascismo histórico italiano foi radicalmente nacionalista, antiliberal e anticomunista. O nazismo acrescentou ao seu projeto elementos centrais de racismo biológico e antissemitismo, além de um projeto expansionista e genocida.
O professor Roger Griffin utiliza a ideia de “ultranacionalismo palingenético” para identificar o núcleo comum de diferentes experiências fascistas. Já Robert Paxton enfatiza práticas políticas como a mobilização nacionalista, o abandono das liberdades democráticas e a violência política.
Por isso, chamar um político de fascista é uma afirmação que exige evidências concretas. É preciso demonstrar quais características do fascismo estão presentes, em vez de utilizar o termo simplesmente como uma forma de insulto político.
O mesmo raciocínio vale para a palavra “comunista”
O eleitor precisa conhecer mais do que um rótulo

É justamente nesse ponto que a provocação feita pelo padre Raphael Romão encontra uma questão mais ampla: o eleitor pode utilizar os rótulos políticos que considerar adequados, mas compreender o significado deles exige mais do que repetir expressões populares nas redes sociais.
Uma pessoa pode defender maior presença do Estado na economia e continuar defendendo eleições livres, liberdade religiosa, propriedade privada e pluralismo político.
Outra pode defender redução de impostos, livre iniciativa e valores conservadores nos costumes sem defender autoritarismo.
Também é possível alguém defender políticas de inspiração socialista dentro de uma democracia constitucional, sem defender a implantação de um regime comunista.
Da mesma forma, uma organização pode adotar nacionalismo ou discurso de ordem sem necessariamente preencher os critérios utilizados pela historiografia para definir fascismo.
A pergunta mais produtiva, portanto, não é apenas “esse político é de esquerda ou de direita?”. É também: quais propostas ele apresenta? Que valores defende? Como pretende exercer o poder? Respeita as instituições? O que propõe para a economia? Como trata direitos individuais? Qual é sua posição diante da liberdade de imprensa, da oposição política e das regras democráticas?
Essas perguntas permitem analisar candidatos para além de etiquetas.
Nesse contexto, conhecer conceitos políticos não significa obrigatoriamente concordar com determinada corrente ideológica. Significa compreender as palavras utilizadas no debate público antes de adotá-las.
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