A vivência do outono e o reencontro interior
Há um instante no ano em que a pressa do mundo parece perder a força diante da sobriedade da terra. O calor expansivo dá lugar a um vento brando, a luminosidade se torna mais oblíqua e a paisagem assume tonalidades densas e acolhedoras.
Na agitação diária, costumamos medir o valor da nossa existência pelo volume de tarefas concluídas, pelos projetos iniciados e pelas metas atingidas. No entanto, o outono chega para nos lembrar de que a vida não se esgota no que produzimos; ela se aprofunda, sobretudo, naquilo que somos capazes de vivenciar.
Na Logoterapia, abordagem desenvolvida pelo psiquiatra austríaco Viktor Frankl, compreendemos que o sentido da vida se manifesta por diferentes vias. Ele pode surgir naquilo que realizamos, nas experiências que vivemos e, sobretudo, na maneira como escolhemos responder às circunstâncias que enfrentamos.
Para Frankl, mesmo diante do sofrimento, o ser humano conserva a possibilidade de encontrar um significado para sua existência. O sentido, portanto, não é necessariamente algo grandioso ou distante, mas pode estar presente nas relações, no trabalho, na criatividade, no amor, na responsabilidade e nas pequenas escolhas cotidianas.
Essa perspectiva nos convida a olhar para a própria trajetória com atenção, reconhecendo que cada pessoa pode construir respostas singulares diante dos desafios e encontrar razões que tornem sua caminhada mais significativa.
Uma das mais nobres e esquecidas é a dos valores vivenciais: a capacidade de encontrar propósito não no ato de intervir no mundo, mas na entrega atenta ao que o mundo nos oferece. Trata-se da experiência de contemplar uma paisagem, de acolher o afeto verdadeiro, de degustar o silêncio ou de simplesmente permitir-se ser tocado pela beleza transitória de cada instante.
Viver a experiência do outono é um convite direto a essa sensibilidade. A natureza nos ensina que a finitude não retira a grandeza das coisas; pelo contrário, confere a elas um valor insubstituível. A folhagem só alcança seus tons mais nobres de âmbar e dourado quando compreende a proximidade da sua despedida.
A transitoriedade não é um defeito da existência, mas o pano de fundo que torna cada respiração, cada encontro e cada ciclo irrepetíveis.
Enquanto o verão nos joga para fora em busca de estímulos constantes, o outono convoca a uma saudável interiorização. Ele nos convida a retornar para a casa de nós mesmos, a avaliar a consistência dos alicerces invisíveis que nos sustentam e a fazer as pazes com os ritmos naturais do tempo. Nem todos os momentos da nossa história serão de colheita ou de florescimento visível. Existem estações que existem unicamente para nos amadurecer por dentro, na quietude e na sobriedade.
Que neste sábado possamos diminuir a velocidade dos passos e aguçar o olhar. Que saibamos viver o outono não como uma estação de perdas, mas como um tempo fecundo de presença, onde despir-se do excesso é a única maneira de se reencontrar com o que realmente permanece de pé.
Bússola do Sentido
É onde a busca por propósito deixa de ser um ideal abstrato e se torna orientação para o cotidiano. Diante do caos, das crises e das variáveis que não controlamos, o sentido da vida não é algo que se inventa na teoria, mas que se descobre na prática.
Esta coluna calibra o olhar para as respostas reais que a realidade nos exige, investigando o amadurecimento, a responsabilidade e a nossa capacidade de superar as dificuldades, porque encontrar um norte não é uma questão de otimismo ingênuo, mas de coragem para governar a si mesmo. Publicada todos os sábados.

Lucas Cartaxo é Psicoterapeuta e Comunicador. Possui pós-graduação em Gestão de Pessoas. É especialista em Logoterapia e Análise Existencial, inspiradas na obra de Viktor Frankl.
Seu trabalho concentra-se no desenvolvimento humano, no autoconhecimento e na busca de sentido para a vida, realizando atendimentos psicoterapêuticos on-line e produzindo conteúdos sobre propósito, responsabilidade e amadurecimento pessoal.
Conheça mais sobre o trabalho dele. Clique aqui. Você pode ler outros textos dele clicando aqui.
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