Eleições 2026 desenham novo mapa político do Brasil

As eleições 2026 produziram, neste domingo (4), um dos cenários políticos mais expressivos dos últimos anos. Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas nenhum dos dois alcançou mais da metade dos votos válidos.

No Senado, 54 cadeiras foram renovadas e o resultado ampliou significativamente a presença de parlamentares identificados com a direita.

Nos governos estaduais, 20 definiram seus governadores já no primeiro turno, enquanto seis estados e o Distrito Federal terão nova votação em 25 de outubro.

LEIA TAMBÉM:
Mãe de Isabella Nardoni tem 245 mil votos e é eleita deputada

Com 99,99% das urnas apuradas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos. Lula ficou em segundo, com 53.876.617 votos, ou 45,16%.

A diferença entre os dois candidatos foi de 2.227.651 votos favoráveis a Flávio. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.

O terceiro colocado foi o Escritor Augusto Cury (Avante), com cerca de 2,9% dos votos válidos, seguido por Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Zema (Novo). A soma dos votos destinados aos candidatos que não avançaram para a segunda etapa representa um dos principais conjuntos de eleitores que poderão ser disputados nas próximas semanas.

LEIA TAMBÉM:
Tarcísio supera própria marca e é reeleito em São Paulo

Outro dado de destaque foi a quantidade de eleitores que não compareceram às urnas. O primeiro turno registrou 21,08% de abstenção, o equivalente a aproximadamente 33,4 milhões de pessoas.

O comparecimento ficou em cerca de 125 milhões de eleitores, diante de um eleitorado apto de aproximadamente 158,7 milhões. Segundo o TSE, a taxa de abstenção foi a maior registrada em um primeiro turno desde 1998, quando chegou a 21,5%. Em 2022, o índice havia sido de 20,95%.

Também foram registrados 2.300.781 votos em branco, correspondentes a 1,84%, e 3.674.149 votos nulos, equivalentes a 2,93%. O TSE ressalta que votos brancos e nulos não são considerados votos válidos e, portanto, não entram no cálculo utilizado para determinar os vencedores das eleições majoritárias.

Kassio Nunes Marques em pronunciamento de encerramento do 1º turno das Eleições 2026 – Foto: Luiz Roberto/Secom

PT fica com apenas três governos estaduais

Dos 20 estados que escolheram governador no primeiro turno, três ficaram com candidatos do PT: Bahia, Ceará e Piauí.

Na Bahia, Jerônimo Rodrigues foi reeleito com 55,80% dos votos válidos. No Ceará, Elmano de Freitas também conquistou a reeleição, com 53,19%. Já no Piauí, Rafael Fonteles foi reeleito com mais de 70% dos votos válidos, alcançando o maior percentual entre os governadores escolhidos no primeiro turno.

Portanto, entre os governos já definidos, somente o PT conseguiu eleger governadores em três estados: Bahia, Ceará e Piauí. Isso não significa, entretanto, que o partido não possa ampliar esse número no segundo turno.

O PL elegeu cinco governadores no primeiro turno: Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rondônia e Roraima. O PSD conquistou quatro governos, enquanto Republicanos e PT ficaram com três cada.

LEIA TAMBÉM:
PL garante a maior bancada do Senado

Entre os demais eleitos estão JHC (PSDB), em Alagoas; Eduardo Braide (PSD), no Maranhão; Daniel Vilela (MDB), em Goiás; Otaviano Pivetta (Republicanos), em Mato Grosso; Eduardo Riedel (PP), em Mato Grosso do Sul; Cleitinho Azevedo (Republicanos), em Minas Gerais; Dr. Daniel (Podemos), no Pará; Lucas Ribeiro (PP), na Paraíba; Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco; Fábio Mitidieri (PSD), em Sergipe; e Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo.

No segundo turno, serão disputados os governos de Acre, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Tocantins.

Eleições 2026 mudam composição do Senado

O resultado mais expressivo do ponto de vista da composição parlamentar aparece no Senado. Dos 54 senadores eleitos neste domingo, 19 pertencem ao PL, maior número entre os partidos. MDB elegeu sete, enquanto o PT conquistou seis cadeiras.

Considerando a orientação ideológica dos novos parlamentares, levantamento do Poder360 classificou 33 dos 54 eleitos como mais alinhados à direita, 19 à esquerda e dois ao centro. Somados aos 27 senadores eleitos em 2022 que continuarão no cargo até 2031, a projeção para 2027 é de 49 senadores identificados com a direita, 27 com a esquerda e cinco com o centro.

O PL, sozinho, deverá iniciar a próxima legislatura com 28 senadores, considerando os 19 eleitos agora e os nove que já possuem mandato. A composição, portanto, não significa que todos os parlamentares classificados como direita integrarão automaticamente uma mesma bancada ou votarão de maneira uniforme. Alianças e posições podem variar de acordo com cada pauta.

LEIA TAMBÉM:
Delegada Graciela e Guilherme Cortez são eleitos

A nova configuração terá consequências práticas. Uma maioria simples no Senado exige 41 votos, enquanto uma Proposta de Emenda à Constituição necessita de 49 votos. Em processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, são necessários 54 votos para condenação. O levantamento do Poder360 aponta que a direita, apesar de numericamente majoritária, não alcançará sozinha os 54 votos.

As primeiras análises de especialistas apontam que o segundo turno será influenciado pela capacidade dos dois candidatos de atrair eleitores que votaram em outras candidaturas, pelo comportamento dos eleitores que optaram por branco ou nulo e pela participação dos mais de 33 milhões que não compareceram às urnas.

Senado em 2027 contará com 20 cadeiras do PL – Foto: Divulgação/Secom

O cientista político Eduardo Grin, professor da FGV-SP, afirmou à Folha que o resultado combina fortalecimento da direita e desgaste do candidato que ocupa o governo. Segundo ele, Lula terá dificuldades para reverter a desvantagem, embora debates e a estrutura administrativa do governo possam modificar o cenário até 25 de outubro.

Já o cientista político Octavio Amorim Neto, professor titular da FGV, avaliou ao Nexo que o resultado revela uma expansão da direita em diferentes níveis da disputa — Presidência, governos estaduais e Congresso. Para o especialista, o desempenho do PL e de candidatos ligados ao bolsonarismo demonstra que esse campo político mantém capacidade de mobilização nacional.

Na análise da CNN, o jornalista e analista político Iuri Pitta destacou o avanço do PL nos governos estaduais e a preservação de espaço do PT principalmente no Nordeste. O resultado, segundo a análise, mostra que a dinâmica das eleições estaduais não foi idêntica à disputa presidencial.

Há ainda uma variável importante: a transferência dos votos das candidaturas que ficaram pelo caminho. Pesquisas realizadas antes do primeiro turno já indicavam que Flávio tinha vantagem na absorção de parcelas do eleitorado de candidatos de direita, mas o comportamento efetivo desses eleitores somente poderá ser medido durante a campanha do segundo turno.

“Fizemos a maior bancada federal da história de Minas: 21 cadeiras. Fizemos a maior bancadas estadual: 20 cadeiras. Dos nove estaduais apoiados, sete foram eleitos. Fizemos a maior bancada jovem conservadora da história do Congresso Nacional. Nickolas Ferreira, o deputado mais votado da história do Brasil. E é só o começo. Nunca, nunca subestime um piá”, disse em vídeo Nickolas nas redes sociais.

Assim, as eleições 2026 deixam um cenário nacional dividido entre uma disputa presidencial ainda aberta e uma configuração legislativa significativamente mais à direita. A votação de 25 de outubro definirá a Presidência e os sete governos estaduais que não foram resolvidos no primeiro turno, enquanto a composição do Senado e dos governos já definidos fornece o primeiro retrato político do país que começará uma nova legislatura em 2027.

3 comments

Publicar comentário