Estamos ficando egoístas demais?
Olá músico! Existe uma mudança interessante na maneira como falamos sobre nós mesmos. Nunca tivemos tanto vocabulário para descrever nossas necessidades, nossos limites, nossas emoções e nossos desejos.
Aprendemos a falar sobre autocuidado, autoestima, saúde mental e amor-próprio. Em muitos aspectos, isso representa um avanço: reconhecer os próprios limites e necessidades é fundamental para uma vida equilibrada.
Mas talvez exista uma pergunta incômoda escondida nesse processo: em que momento cuidar de si passou a significar colocar-se acima dos outros?
A questão não é defender uma volta a uma época em que as pessoas eram ensinadas a suportar tudo em silêncio. O problema é outro. É perceber que uma sociedade pode sair de um extremo e caminhar para outro. Podemos deixar de ignorar completamente nossas necessidades e, ao mesmo tempo, começar a tratar qualquer frustração como algo intolerável.
Talvez estejamos confundindo, algumas vezes, amor-próprio com centralidade.
Freud oferece uma perspectiva interessante para pensar sobre isso. Ao investigar o funcionamento da mente humana, ele mostrou que nossas ações não são determinadas apenas pela parte consciente e racional de nós mesmos. Desejos, impulsos e conflitos inconscientes também participam daquilo que fazemos. Isso significa que nem sempre conhecemos completamente as razões pelas quais agimos.
Essa ideia é importante porque o egoísmo nem sempre aparece como uma decisão consciente de prejudicar alguém. Ele pode aparecer de maneiras muito mais sutis. Podemos acreditar sinceramente que estamos apenas “nos priorizando” quando, na realidade, estamos evitando qualquer situação em que seja necessário considerar o desejo de outra pessoa.
Existe uma diferença entre estabelecer um limite e não aceitar nenhuma contrariedade.
Existe diferença entre cuidar da própria saúde emocional e considerar que todos ao nosso redor precisam se adaptar permanentemente ao nosso estado emocional.
Existe diferença entre ser fiel a si mesmo e utilizar a frase “eu sou assim” como justificativa para nunca rever o próprio comportamento.
Talvez parte da dificuldade esteja justamente no fato de que vivemos em uma cultura que transformou a satisfação individual em uma espécie de referência permanente. Somos incentivados a perguntar se determinada escolha nos faz felizes, se determinada relação nos faz bem, se determinado trabalho combina conosco. São perguntas legítimas, mas elas não deveriam ser as únicas.
Platão, muitos séculos antes de Freud, já discutia uma questão fundamental: uma vida boa é simplesmente uma vida em que conseguimos satisfazer nossos desejos?
Em A República, Platão apresenta uma concepção de justiça e de organização da vida humana que está muito distante da ideia de que devemos simplesmente fazer aquilo que temos vontade. Para ele, existe uma diferença entre desejar alguma coisa e saber se aquilo que desejamos é realmente bom. A razão deveria exercer um papel sobre os desejos, justamente porque nem todo impulso merece ser transformado em ação.
Essa discussão continua extremamente atual.
Hoje, frequentemente tratamos nossos sentimentos como se fossem argumentos definitivos. “Eu sinto isso” parece ter se transformado, em algumas situações, em “portanto, isso é verdade” ou “portanto, tenho razão”.
Mas sentir alguma coisa é uma experiência legítima; não é necessariamente uma conclusão sobre a realidade.
Podemos sentir raiva e estar errados.
Podemos nos sentir injustiçados e ainda assim ter responsabilidade pelo conflito.
Podemos querer alguma coisa e descobrir, depois, que não deveríamos tê-la feito.
Reconhecer isso não significa invalidar nossas emoções. Significa não permitir que elas sejam as únicas responsáveis pelas nossas decisões.
Talvez essa seja uma das maiores dificuldades do nosso tempo: aprender a conviver com o desconforto sem imediatamente transformá-lo em um problema que precisa desaparecer.
Uma pessoa nos decepciona e queremos afastá-la imediatamente. Alguém discorda de nós e interpretamos a discordância como desrespeito. Precisamos fazer uma concessão e entendemos aquilo como uma perda.
Somos contrariados e concluímos que alguém ultrapassou nossos limites.
Às vezes, é exatamente isso que aconteceu. Mas outras vezes estamos apenas experimentando algo que faz parte de qualquer relação humana: não somos os únicos a ter vontades.
Relacionamentos exigem negociação. Amizades exigem reciprocidade. Famílias exigem concessões. O trabalho exige colaboração. A vida em sociedade exige que, em determinados momentos, o nosso desejo deixe de ser a prioridade.
Isso não é necessariamente uma violência contra nós. É simplesmente o preço de viver com outras pessoas.
Talvez seja esse o ponto em que precisamos recuperar uma ideia que parece cada vez mais estranha: nem tudo precisa ser sobre nós.
Nem toda conversa precisa voltar para a nossa experiência. Nem toda discordância precisa ser respondida. Nem todo problema precisa receber a nossa opinião. Nem todo comportamento desagradável precisa ser interpretado como uma ofensa pessoal.
Às vezes, alguém está simplesmente tendo um dia ruim. Às vezes, alguém pensa diferente. Às vezes, alguém precisa de alguma coisa que não podemos oferecer. E às vezes precisamos aceitar que não somos o centro daquela situação.
Isso não significa abandonar o amor-próprio. Significa colocá-lo dentro de uma perspectiva maior. Talvez maturidade seja justamente conseguir sustentar duas ideias ao mesmo tempo: eu tenho valor e as outras pessoas também têm.
Eu tenho limites, mas os outros também têm. Meus sentimentos importam, mas os sentimentos dos outros também importam.
Minha história merece ser respeitada, mas eu não conheço toda a história de quem está diante de mim.
Essa talvez seja uma forma mais sofisticada de pensar sobre o egoísmo. Não como uma característica exclusiva das pessoas que pensam demais em si mesmas, mas como a dificuldade de reconhecer que existe uma realidade fora da nossa própria experiência.
Freud nos lembra que não somos completamente transparentes para nós mesmos. Platão nos lembra que nossos desejos não deveriam governar sozinhos a nossa vida.
Entre essas duas ideias existe uma reflexão bastante atual: talvez não precisemos pensar menos em nós mesmos, mas precisamos ampliar a nossa capacidade de pensar além de nós mesmos.
Porque uma sociedade formada por indivíduos que conhecem seus direitos, seus limites e suas necessidades é saudável.
Mas uma sociedade em que ninguém aceita ceder, ouvir, compreender ou considerar o outro se torna impossível. No final, talvez a pergunta não seja se estamos ficando egoístas demais.
Talvez seja uma pergunta ainda mais difícil: quando foi que começamos a acreditar que cuidar de nós mesmos significava não precisar mais cuidar de ninguém?
Reflexões da Dani
Tem como objetivo retratar o cotidiano do músico de forma verdadeira e leve, compartilhando experiências e inquietações que surgem entre ensaios, palcos, estudos e silêncios…

Dani Oliveira
Graduada em Gestão Financeira, especialista em Tráfego Pago, apaixonada por Marketing e COO da Musixe. Ela trabalha para aproximar alunos da música de forma acessível, humana e prática, valorizando tanto a técnica quanto a vivência artística.
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