O rádio precisa acompanhar quem sempre o ouviu
O rádio nasceu no Brasil há mais de um século, mas continua ocupando um espaço singular no cotidiano. A primeira transmissão foi em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência. E a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Edgard Roquette-Pinto, consolidou no ano seguinte as transmissões regulares. Desde então, o rádio atravessou transformações que poderiam ter decretado seu desaparecimento: televisão, televisão por assinatura, internet, streaming, podcasts, redes sociais e, agora, inteligência artificial. Sobreviveu a todas.
Mais do que sobreviver, o rádio ainda demonstra força. A edição 2025 do Inside Audio, da Kantar IBOPE Media, mostra que 79% da população das principais regiões metropolitanas acompanha o meio e que os ouvintes dedicam, em média, 3h47 por dia à escuta. O estudo também aponta que 92% dos brasileiros consumiram algum formato de áudio nos 30 dias anteriores à pesquisa. O problema, portanto, talvez não esteja no rádio. Pode estar na maneira como algumas emissoras estão entendendo — ou deixando de entender — o novo rádio.
Durante décadas, a criatividade foi uma das principais ferramentas de uma emissora. Mesmo quando faltavam recursos financeiros, bons profissionais conseguiam construir identidade com voz, texto, música, improviso e proximidade. O locutor transformava uma cabine em companhia. O ouvinte muitas vezes nunca conheceu pessoalmente aquela voz, mas passou a reconhecê-la como reconhece a de um colega de trabalho, de um vizinho ou de alguém da própria família. Essa relação permanece um dos maiores patrimônios do rádio.
É justamente por isso que causa estranheza encontrar emissoras cuja sintonia é tecnicamente excelente, mas a presença digital parece abandonada. O áudio chega limpo, enquanto o site demora a carregar ou é confuso; a programação está no ar, mas a rede social permanece horas sem atualização; a emissora anuncia modernidade, mas não oferece aplicativo; transmite para uma cidade inteira, mas não se preocupa em estar presente nos dispositivos que o público já utiliza. O rádio contemporâneo precisa ser ouvido onde o ouvinte estiver.
A própria Kantar mostra essa mudança. Embora 70% dos ouvintes ainda consumam conteúdos das emissoras pela sintonia tradicional, 33% acessam conteúdos de rádio pelo YouTube, 16% por serviços de áudio sob demanda, 13% pelos aplicativos das emissoras e 12% pelas redes sociais. Não se trata de substituir o dial. Trata-se de multiplicá-lo.
O rádio vai acabar? Não. Mas aquele do passado, já não existe há muito tempo – ou pelo menos não deveria. É preciso que o rádio se comunique com seu público utilizando a linguagem de cada rede social: Instagram, TikTok, X (antigo Twitter), Facebook e Youtube.
Nesse cenário, a plástica também precisa evoluir. Vinhetas não podem funcionar apenas como carimbos repetitivos “a torto e a direito”. Dizer “a minha rádio”, “a minha rede” ou qualquer outro slogan não diz “nada com nada”. Só reflete uma baixa criatividade de quem trabalha neste setor. A vinheta precisa conversar com o ouvinte, contextualizar a música, antecipar uma informação, criar expectativa, reforçar uma personalidade. Uma boa plástica não interrompe a programação: costura a programação.
E o rádio já não é apenas ouvido. É também assistido. O termo técnico mais utilizado para essa transformação é Visual Radio, modelo que combina a transmissão de áudio com imagens do estúdio, apresentadores, entrevistas, informações e outros elementos audiovisuais. A tecnologia não é exatamente nova, mas ganhou nova dimensão com YouTube, streaming e redes sociais. Estudos e experiências do setor mostram que a programação pode ser transmitida simultaneamente em áudio e vídeo, inclusive com automação de câmeras.
Os números ajudam a explicar por que isso deixou de ser apenas uma experiência tecnológica. A Jovem Pan informou que seus canais no YouTube somavam 38 milhões de inscritos ao fim de 2024 e mais de 304 milhões de horas assistidas naquele ano; o grupo também declarou ter acumulado 2,8 bilhões de visualizações de vídeos nas redes sociais. Em 2024, o canal Jovem Pan News havia alcançado 8 milhões de inscritos e mais de 4,8 bilhões de visualizações acumuladas. São números que demonstram como uma operação originalmente radiofônica pode transformar imagem em audiência e audiência em oportunidade comercial.
Há ainda uma oportunidade que muitas rádios podem explorar melhor: a presença por comando de voz. A Amazon informou que brasileiros ouviram mais de 2 bilhões de horas de música, rádio, podcasts e audiobooks em dispositivos Alexa. O Radio Skills Kit permite que estações sejam encontradas pelo nome, frequência ou indicativo, inclusive no Brasil. Uma emissora que chega ao carro, ao celular, ao computador, à televisão, ao aplicativo e à Alexa aumenta as possibilidades de continuar sendo companhia.
Isso não significa que toda rádio precise gastar milhões. A solução começa por estratégia. É possível estabelecer um calendário digital, atualizar redes sociais durante a programação, simplificar o site, disponibilizar streaming estável, criar cortes de entrevistas, aproveitar vídeos verticais, estruturar um canal no YouTube, desenvolver podcasts e estudar ferramentas de Visual Radio conforme a realidade financeira da empresa. A criatividade continua sendo indispensável — talvez agora mais do que nunca.
O rádio não precisa abandonar sua história para sobreviver. Precisa compreender que sua história sempre foi marcada pela capacidade de adaptação. A crise, quando existe, não será resolvida apenas com equipamentos novos, nem com slogans que afirmam modernidade. Será enfrentada por profissionais dispostos a experimentar, gestores dispostos a investir e emissoras capazes de transformar tecnologia em relacionamento.
O futuro do rádio não está apenas na frequência em que ele transmite. Está na capacidade de permanecer presente quando o ouvinte troca o aparelho, muda de ambiente ou escolhe outra tela. Quem entender isso poderá continuar sendo ouvido. Quem permanecer preso ao passado corre o risco de transformar uma companhia histórica em apenas uma lembrança.
Contraponto
Vem do latim punctus contra punctum, que significa “ponto contra ponto” (nota contra nota). Na música, diferente da melodia acompanhada (onde há uma voz principal e acordes de apoio), no contraponto cada linha tem seu próprio ritmo e direção melódica, mas combinam perfeitamente na verticalidade da harmonia. Fora da música, a palavra indica qualquer ideia, argumento ou fato que serve de contraste, oposição ou complemento a uma opinião.

Thiago Rocioli
É o editor-chefe do Pulsar Notícias. Em 15 anos de experiência profissional dedicados ao jornalismo regional, em diferentes meios de comunicação. Acompanhou as transformações do setor. Do jornal impresso para o digital. Atualmente é produtor de conteúdo para o blog da Musixe, consultor de vendas e apresentador de lives da plataforma de música.
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