O impacto da IA na comunicação

A comunicação sempre mudou quando uma nova tecnologia alterou a maneira de produzir, distribuir ou consumir informação. A imprensa enfrentou o rádio. O rádio enfrentou a televisão. A televisão enfrentou a internet. Agora, todos enfrentam uma transformação ainda mais abrangente: a Inteligência Artificial, ou simplesmente IA. A diferença é que, desta vez, não estamos diante apenas de um novo canal. A tecnologia começa a participar da própria produção do conteúdo, da pesquisa à edição, da tradução à distribuição e da relação com o público.

Seria um erro tratar a IA apenas como ameaça. Também seria imprudente enxergá-la como solução para todos os problemas da comunicação. O desafio está justamente no equilíbrio. O Reuters Institute aponta que, em 2026, 97% dos executivos de empresas jornalísticas pesquisados consideram importante o uso de IA em automações de bastidores, enquanto 82% apontam aplicações na apuração e 81% em programação e desenvolvimento de produtos. Ao mesmo tempo, somente 44% afirmam que suas iniciativas com esta tecnologia apresentam resultados promissores; outros 42% consideram os resultados ainda limitados.

Os números ajudam a desmontar duas ilusões. A primeira é acreditar que a IA ainda esteja distante das redações. Não está. A segunda é imaginar que sua adoção, por si só, produza jornalismo melhor. Também não produz.

Na comunicação, a IA pode assumir tarefas repetitivas que consomem tempo precioso. Pode transcrever entrevistas, organizar grandes volumes de documentos, auxiliar na tradução, sugerir títulos, identificar padrões em bases de dados, produzir resumos e adaptar conteúdos para diferentes formatos. Basta o “prompt” ideal que, a bem da verdade, é construído com o tempo. Curto ou não.

No Brasil, veículos já utilizam essas ferramentas. O recurso tecnológico amplia a capacidade operacional sem necessariamente exigir uma grande estrutura. Mas existe uma fronteira que não deveria ser ultrapassada: deixar a IA substituir o pensamento jornalístico. O professor de comunicação Moisés Costa, em artigo divulgado pela Abraji, defende que a IA deve permanecer mediada pelos jornalistas e afirma que o jornalismo profissional precisa manter o “olhar humano sobre a notícia”. A observação é fundamental porque informação não é simplesmente combinação de palavras.

Uma IA pode resumir uma entrevista. Mas não conhece necessariamente o contexto humano daquela pessoa. Isso significa que o humano precisa se capacitar diante da Inteligência Artificial mas a IA – por mais recursos que oferece – não substitui o olhar clínico das pessoas.

Sistemas generativos podem inventar informações, atribuir declarações inexistentes a pessoas reais, reproduzir vieses presentes nos dados e criar imagens, áudios e vídeos capazes de confundir até mesmo espectadores atentos. A UNESCO recomenda que a cobertura sobre IA considere não apenas suas aplicações, mas também questões de poder, desigualdade, direitos humanos e responsabilidade.

Existe ainda uma transformação silenciosa: o público começa a utilizar a própria IA para buscar notícias. O Reuters Institute registrou aumento do uso semanal de ferramentas generativas de 18% para 34% entre 2024 e 2025 nos seis mercados analisados. Em 2026, a instituição também passou a acompanhar o crescimento dos chatbots como porta de entrada para informações jornalísticas. Isso significa que o desafio das empresas de comunicação não será apenas produzir conteúdo, mas continuar sendo encontradas quando o leitor deixar de procurar diretamente por um site.

A resposta não está em combater a IA. Está em utilizá-la com método. Cada veículo deveria estabelecer uma política clara de uso, determinar quais tarefas podem ser automatizadas, exigir revisão humana, proteger dados sensíveis, identificar conteúdos sintéticos quando necessário e capacitar seus profissionais. A IA precisa ser incorporada ao fluxo de trabalho, não colocada no lugar do fluxo de trabalho.

Contraponto

Vem do latim punctus contra punctum, que significa “ponto contra ponto” (nota contra nota). Na música, diferente da melodia acompanhada (onde há uma voz principal e acordes de apoio), no contraponto cada linha tem seu próprio ritmo e direção melódica, mas combinam perfeitamente na verticalidade da harmonia. Fora da música, a palavra indica qualquer ideia, argumento ou fato que serve de contraste, oposição ou complemento a uma opinião.

Thiago Rocioli
É o editor-chefe do Pulsar Notícias. Em 15 anos de experiência profissional dedicados ao jornalismo regional, em diferentes meios de comunicação. Acompanhou as transformações do setor. Do jornal impresso para o digital. Atualmente é produtor de conteúdo para o blog da Musixe, consultor de vendas e apresentador de lives da plataforma de música.

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