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CONFIRA!

Quanto mais FÁCIL sua vida, mais FRACO você fica!

Vivemos a era do conforto absoluto: comida pronta em minutos, filmes escolhidos sem sair do sofá, respostas imediatas para qualquer dúvida e distrações de diversas vertentes, como quisermos. Temos hoje mais conforto do que qualquer rei do século XVI. Nunca tivemos tantas facilidades.

Em poucos minutos resolvemos o que antes exigia horas, dias ou até semanas: comida chega à porta sem muita preocupação; respostas do “Sr. Google” aparecem sem esforço de pesquisa; conversas começam e terminam sem presença; o entretenimento nunca se esgota; e agora, diretamente das últimas tecnologias, temos a IA.

A vida foi encurtada em seus caminhos mais árduos, e isso, por si só, não é um mal. O problema é que, ao eliminar quase todos os atritos do cotidiano, fomos também eliminando as pequenas ocasiões em que a paciência, a perseverança e todas as outras virtudes precisam ser exercitadas.

O homem contemporâneo vive cercado de atalhos e, pouco a pouco, passa a acreditar que todo caminho deve ser curto e imediato.

Assim, sem perceber, vai se tornando impaciente diante do esforço, intolerante à demora e igualmente frágil diante do que exige fortaleza, levando cada vez mais as massas à decepção consigo mesmas, cansaço e até mesmo depressão e ansiedade – tudo isso por sentir-se incapaz ao observar a própria biografia sem sentido e vitalidade.

Realmente, nunca nos sentimos tão cansados – com sinceridade, pense aí no seu dia a dia – dispersos e sem força para sustentar decisões simples. É curioso observar como a tecnologia, que deveria nos servir, passou a nos moldar de dentro para fora, criando uma geração que deseja muito, planeja muito, mas executa pouco. Quanto mais o mundo se torna automático, menos o homem se torna deliberado.

Aristóteles, ao pensar a alma humana, descrevia diferentes faculdades que compõem nossa vida interior; dentre elas, existe a vontade — essa potência que inclina o sujeito a agir conforme o bem reconhecido. Não se trata de um botão mágico que se aperta quando se quer mudar de vida, mas de uma força que precisa ser educada, treinada e fortalecida pelo hábito, como o bíceps que você quer ver crescer na academia. Para o filósofo, ninguém se torna virtuoso por desejar ser; torna-se virtuoso por repetir atos que formam o caráter. Em termos mais simples: a vontade funciona como um músculo. Se não é exercitada, atrofia.

O problema do nosso tempo é que quase tudo ao redor conspira para que ela não seja usada. Não precisamos mais esperar, suportar, insistir ou perseverar com tanta frequência. O tédio foi abolido e, com ele, o esforço foi encurtado e a frustração virou algo quase inevitável. Assim, a alma vai se acostumando ao caminho mais fácil, e aquilo que exige constância — acordar cedo, estudar com profundidade, cuidar da saúde, manter compromissos — passa a parecer excessivo. Não é que o ser humano tenha se tornado mais fraco do nada, mas ele tem sido menos convocado a exercer sua força interior. E o que não é convocado, enfraquece.

Há uma diferença importante entre conforto e comodismo. O conforto pode ser bom e até necessário; o comodismo, por outro lado, dissolve a capacidade de escolher o bem quando ele exige esforço. Uma pessoa que nunca se priva de nada, que nunca sustenta uma decisão difícil, que nunca treina sua constância, acaba se tornando refém dos próprios impulsos. A vontade deixa de governar e passa a ser governada pelos apetites imediatos. Aristóteles diria que, nesse cenário, a parte inferior da alma começa a comandar a superior — e a desordem interior se instala silenciosamente.

Lembre aí de seus avós e familiares ancestrais — se é que conviveu com eles — que faziam o que precisavam sem muitos murmúrios, e você hoje se pega questionando:

• “Nossa, como minha vó dava conta de 13 filhos?”
• “Cara, meu avô, uma hora dessas, estava trabalhando na roça, debaixo de sol quente.”
• “Minha tia tinha uma paciência para fazer essa receita, Deus me livre, que negócio difícil.”

Talvez a grande tarefa do homem contemporâneo não seja rejeitar a tecnologia, mas aprender a não ser engolido por ela. Isso significa criar pequenas resistências diárias: cumprir horários, levantar antes da soneca do despertador, sustentar o compromisso que marcou, terminar o que começou, tolerar o tédio, insistir quando a motivação passou. São exercícios simples, quase invisíveis, mas que devolvem à vontade a sua musculatura.

Porque, no fim das contas – como diziam os medievais –, não é a intensidade das resoluções que transforma alguém, mas a constância dos atos repetidos quando ninguém está olhando.

Se a alma humana possui faculdades diversas, a vontade é aquela que nos permite ordenar as demais. Sem ela, o conhecimento fica estéril, os desejos se tornam desordenados e tiranos e, com isso, a vida se fragmenta, deixando você e eu com a nossa personalidade dissolvida.

Fortalecê-la é, portanto, um trabalho silencioso e contínuo. Em um mundo que facilita tudo, talvez o verdadeiro ato de liberdade seja escolher, deliberadamente, aquilo que exige de nós um pouco mais de firmeza. Afinal, a força interior não nasce pronta: ela se constrói, dia após dia, no exercício de pequenas fidelidades.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

O brasileiro e a urgência em aparecer- Will insert post title.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana.

Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.

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