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CONFIRA!

Você NUNCA sai do carnaval, e eu vou te mostrar por quê!

Se você acha que o mosquito te atrapalha em se concentrar, em dormir, em prestar atenção, enfim, em fazer bem o que precisa ser feito, é porque você não sabe o quanto o carnaval e a cosmovisão que ele traz consigo destroem o brasileiro.

“Como assim, Gabriel?”
Vão dizer: “Lá vem ele com papo religioso”.
E eu afirmo: não!

Essa nossa conversa passa longe de ser algo religioso. A verdade é que, pela grande influência exercida pelo costume do carnaval e seus desdobramentos, o brasileiro mantém seu comportamento estático há anos, para não dizer séculos. Sabe-se ao certo que as origens da festa são religiosas; porém, no Brasil, nunca estiveram tão ligadas a costumes práticos da fé, apesar de ocorrer dentro do calendário litúrgico católico: dias antes da Quaresma.

Poderiam ser citadas aqui as linhagens históricas do carnaval, como o entrudo, em que as pessoas se sujavam em uma grande baderna pública, e depois as festas mascaradas da elite, seguidas pelas rodas de samba das vilas; entretanto, este não é o objetivo da coluna de hoje.

E, conforme a sociedade brasileira avançava, com ela os costumes carnavalescos também se modificavam, assim como sua forma de compreender o mundo e as coisas à sua volta. Até os dias atuais, as pessoas se preparam durante todo o ano para andar atrás de carros de som, os chamados trios elétricos, para dançar e fazer todas as bizarrices que reprimiram durante os dias anteriores e que voltarão a reprimir nos que sucederão. Músicas extravagantes, poucas roupas ou nenhuma, bebidas alcoólicas em excesso, pegação, sexo casual e muita, muita felicidade plástica de dentes escancarados.

“Nossa, que exagero, Gabriel, é só um carnaval.”

Veja: a cultura do churrasco todo domingo com o pessoal todo, dança e música alta; a cultura de sair para beber, um costume tão vigente hoje: o famoso sextou. Todos eles com características parecidas e profundamente ligados à necessidade saudosista de reviver os hábitos carnavalescos vividos no início do ano.

Citarei esses comportamentos colocando as consequências de cada um deles. Em relação ao primeiro costume, talvez esse seja o mais evidente: a infantilização. Adultos que permanecem constantemente em ambiente de lazer tendem a se tornar cada vez mais imaturos e incapazes de conviver com o mundo real no pós-festa. Depois, cito aqui a dependência de estímulos externos para sentir-se bem (barulho, comida, grupo e risadas), tudo isso para ofuscar responsabilidades, preocupações e problemas, utilizando esses ambientes como fuga e tornando-se cada vez mais presos a eles.

Agora, sobre a cultura de sair para beber. Diante da minha experiência em consultório, atendendo todo tipo de gente, posso dizer: alcoolismo, em quase 100% dos casos, é fuga emocional disfarçada de socialização, carregada de depressão — sim, não se assuste, foi isso que eu disse mesmo: depressão. E ainda há o perigo da coisificação das pessoas e das relações; essas pessoas que se sujeitam a tais comportamentos perdem a ordem correta das coisas. Em vez de estar com as pessoas pela presença e amizade, estão com elas para beber; o álcool torna-se o eixo social necessário. Já escutei muito: “se não tem cerveja, eu não vou”.

E o último: o famoso “sextou”.
Que vida chata!
A vida só tem sentido na sexta-feira, quando começa a retomar o brilho nos olhos por conta de uma lata de alumínio com um líquido gelado que o deixa “mais feliz”. Já sai do trabalho ansioso, abandona a família em casa para ir atrás de uma ilusão.

Um dos grandes problemas observados da maldita cultura do sextou é a percepção do trabalho, da vida familiar e da rotina como uma verdadeira punição, como se todos os dias fossem o sofrimento necessário para a glória da sexta, esvaziando toda a capacidade de encontrar sentido no dever e na responsabilidade, que são, no fim das contas, as únicas coisas capazes de amadurecer o ser humano. Isso acaba por acarretar a fragilidade do caráter do sujeito, tornando-o cada vez mais capaz de praticar o mal e se afastar do que realmente é importante e belo na vida.

Todos esses traços somados têm suas raízes nas festas de carnaval, que atiçam o brasileiro pelo resto do ano todo; aliás, é perceptível que nenhuma outra festa da cultura brasileira possui tamanha intensidade e influência na vida social como a citada.

A questão aqui não é simplesmente mostrar o que é o carnaval, mas apontar quais são as raízes de diversos comportamentos dos sujeitos brasileiros. É claro, esgotar as análises seria presunção, mas, nessas poucas linhas, podemos ao menos lançar uma linha de raciocínio clara para a compreensão desse fenômeno que, de algum modo, está nas ruas, nas casas e talvez até mesmo dentro da nossa casa.

Ainda assim, reconhecer as raízes de certos hábitos não precisa conduzir ao pessimismo, mas à possibilidade de revisão consciente. Culturas são feitas de práticas repetidas, e práticas podem ser reorganizadas quando indivíduos e famílias recuperam critérios, sentido e hierarquia de valores. Ao substituir a mera repetição pelo discernimento — escolhendo melhor os encontros, o uso do tempo, o modo de celebrar e de descansar — abre-se espaço para uma vida social mais sóbria, vínculos mais profundos e uma rotina que favoreça maturidade e sentido.

A esperança, portanto, não está em negar a cultura, mas em refiná-la a partir de dentro, com pequenas decisões cotidianas que você pode tomar que, somadas, reorientam a casa, as relações e a própria vida comum.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Quanto mais FÁCIL sua vida, mais FRACO você fica!- Will insert post title.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana.

Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.

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