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CONFIRA!

 O ser humano precisa acabar!

Existe um fenômeno curioso acontecendo diante dos nossos olhos: nunca se falou tanto sobre saúde mental e, ao mesmo tempo, nunca se viu tanta gente cansada de existir. A palavra do século talvez não seja “progresso”, nem “tecnologia”, mas exaustão. O homem moderno acorda cansado, vive ansioso e dorme preocupado — isso quando consegue dormir.

Não por acaso, diversos levantamentos e pesquisas  internacionais têm apontado o Brasil como um dos países com maiores índices de ansiedade do mundo, desde 2020. A Organização Mundial da Saúde já indicou, em relatórios amplamente divulgados, que os transtornos de ansiedade e depressão cresceram de forma significativa nas últimas décadas. Nunca tivemos tanto acesso à informação, e paradoxalmente nunca existiu tanta gente insegura sobre a própria vida.

Talvez o problema não esteja apenas na química do cérebro — embora ela exista e interfira —, mas na “atmosfera” criada em torno de nós e que respiramos diariamente.

Propositalmente, redigi o parágrafo anterior como demonstração disso, caro leitor.

Vivemos sob a contínua divulgação do mal.

Abra qualquer rede social e lá estará o anúncio quase litúrgico do desastre: crises, violência, colapsos, guerras armadas e culturais, fracassos humanos repetidos em alta definição. Aos poucos, instala-se uma narrativa silenciosa: o ser humano falhou, o ser humano é o problema, o ser humano deveria acabar. Repete-se, quase como que um mantra moderno, que estamos perdidos e que todos os males do mundo nascem inevitavelmente da própria e desgraçada humanidade.

Curioso… o único ser capaz de amar, criar hospitais, escrever poemas, educar crianças e sacrificar-se pelo outro tornou-se também o principal acusado do tribunal contemporâneo.

A ausência de esperança não surge de repente; ela é cultivada. Não é apenas tristeza — é uma postura diante da realidade — ela é a declaração de fim de forças, é o famoso “entregar os pontos”. A esperança, ao contrário do que muitos pensam, não é otimismo ingênuo nem pensamento positivo de caneca motivacional: “mentalize e receberá”.

Esperança é ânimo em busca do bem.

É uma decisão existencial.

Quantas vezes em consultório me percebi diante de pessoas com as próprias vidas falidas, viviam arrastando do trabalho para casa, da casa para o trabalho, num vazio imensurável; por outro lado conectadas com as notícias mais atuais do mundo todo.

Os antigos compreendiam algo que esquecemos: viver é agir em direção a um bem que ainda não possuímos plenamente. Sem essa tensão para o bem, a alma entra em estado de suspensão. E uma alma suspensa da realidade adoece.

Santo Agostinho percebeu isso ao afirmar que o coração humano permanece inquieto enquanto não encontra seu verdadeiro descanso. A inquietação não é o problema; o problema é quando ela perde a direção. Ansiedade é movimento sem finalidade. Esperança é movimento orientado.

Aqui aparece um paradoxo profundamente humano: nem tudo depende de nós, e ao mesmo tempo tudo depende de nós.

Calma aí, vou explicar.

Nem tudo depende de nós, porque não controlamos o mundo, o tempo, as circunstâncias, nem os resultados finais das nossas ações de modo completamente como pensamos. O homem que tenta controlar tudo inevitavelmente colapsa sob o próprio peso. É evidente que parte da ansiedade moderna venha exatamente dessa ilusão de controle absoluto: precisamos ser bem-sucedidos, felizes, produtivos, saudáveis, realizados e equilibrados — tudo antes dos 30. “Tudo será maravilhosamente como planejei.”

Mas, por outro lado, tudo depende de nós. Depende da postura interior, das escolhas pequenas, da fidelidade diária ao bem possível. Não escolhemos todas as cartas do jogo, mas escolhemos como jogá-las.

A esperança nasce exatamente nesse espaço: entre o limite e a responsabilidade.

O desesperançoso abandona a ação porque acredita que nada adianta, que não vai dar certo mesmo, ou até por culpar os outros, pensando na verdade que fulano já fez antes dele. O esperançoso, em contrapartida, age justamente porque sabe que o bem nunca é inútil, nunca é suficiente — ainda que invisível.

Talvez por isso o humor seja um sinal secreto de esperança. Quem ainda consegue rir — especialmente de si mesmo — demonstra que não abraço o caos. Há algo profundamente saudável em reconhecer que o mundo não está totalmente sob nosso controle… inclusive porque, convenhamos, se estivesse provavelmente já teríamos piorado bastante a situação, não é mesmo?!

A esperança não ignora o mal; ela se recusa a conceder-lhe a última palavra. Ou como dizia G.K. Chesterton: “a esperança é uma virtude teimosa que brilha quando a situação parece desesperadora, não sendo um mero otimismo, mas um ato de vontade”

Num tempo em que se proclama diariamente que o ser humano é o problema, talvez o ato mais esperançoso seja lembrar que o ser humano também é a resposta. Não perfeita, não definitiva, mas real. Cada gesto de cuidado, cada ato de perdão, toda bondade mesmo silenciosa, cada trabalho honesto e cada tentativa sincera de viver bem contradizem a narrativa do desespero.

Porque a esperança não é fechar os olhos para a tragédia do mundo, e fingir estar tudo maravilhoso. É abrir os olhos e, neste mesmo mundo, continuar escolhendo o bem.

No fim das contas, a esperança não é um sentimento que aparece quando tudo melhora. É uma virtude que surge quando decidimos caminhar mesmo sem garantias — sabendo que não controlamos tudo, mas que ainda assim somos responsáveis por aquilo que fazemos com o que nos foi dado.

E talvez seja exatamente isso que mantém o mundo de pé: não a ausência do mal, mas a silenciosa teimosia daqueles que ainda acreditam que vale a pena fazer o bem hoje.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

Quanto mais FÁCIL sua vida, mais FRACO você fica!- Will insert post title.

Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.

As opiniões defendidas pelos colunistas colaboradores e publicadas no Portal Pulsar Notícias não, necessariamente, refletem às opiniões do portal.

1 comentário

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Letícia

Sensacional 👏

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