Ela VAI CHEGAR uma hora!

Sim, ela vai chegar uma hora! Somos os únicos mortais de fato. “Como assim?” Somos os únicos que sabem que vão morrer — e, paradoxalmente, os que mais vivem como se isso não fosse verdade. O animal foge do perigo, mas não carrega a consciência do fim. O homem, sim. Ele sabe que sua história terá um último capítulo. E isso deveria mudar tudo: o modo como ama, como decide, como perdoa, como erra, como recomeça. No entanto, vive-se como se o livro nunca fosse terminar.

É a morte que dá contorno à vida. É o fim que diz se a história foi triste ou feliz. Um romance pode ter episódios dramáticos, capítulos confusos, personagens contraditórios; mas é o desfecho que ilumina o sentido de tudo. Há histórias que terminam com serenidade, outras com arrependimento, outras com um silêncio pesado que denuncia que algo essencial foi perdido. A verdade é que a morte não tem poder para criar sentido; porque ela só revela o que foi construído pela pessoa.

Se você não tiver isso em mente, ela chegará e você estará de qualquer jeito. Não do modo que gostaria de estar, não do modo que imaginou, não do modo que faria sentido para você. A grande questão da morte, que foi tão dita pelos poetas, santos e profetas: ela não avisa, ela encontra o sujeito no estado em que ele está. E existem várias formas de chegar a esse último momento: reconciliado ou endurecido, em paz ou inquieto, com a sensação de missão cumprida ou com a impressão de que a vida escorreu pelas mãos, o tempo passou e nada fiz.

Mas para falar disso, precisamos enfrentar uma pergunta esquecida: o que é felicidade? O que é tristeza? Não como emoções passageiras, mas como estado final de uma vida. O sujeito pode rir muito e ainda assim estar profundamente triste. Pode sofrer muito e ainda assim terminar feliz. A felicidade, em última análise, não é ausência de dor; é coerência com a própria missão, com aquilo que você sabe que precisa fazer, e fazer bem feito.

Em meus sete anos como seminarista, acompanhando padres em meios aos momentos finais da vida de diversas pessoas, pude presenciar esses dois cenários: de um lado o arrependido amargurado com o final da própria história frustrada e vazia, e por outro lado o sujeito muitas vezes pobre e doente, mas reconciliado consigo, com os familiares e com Deus, morria feliz e em paz.

Só conseguimos perceber que a felicidade é a certeza do trajeto correto percorrido, quando temos referenciais claros, luzeiros que iluminam o caminho. Sem referência, qualquer decisão parece válida. Com referência, certas escolhas revelam imediatamente sua gravidade, e delimitam os espaços do bom e do ruim.

Sendo cristão ou não, será impossível  negar que a vida de Cristo revela todas as nuances da experiência humana: a alegria simples nas bodas, a amizade verdadeira, o cansaço da caminhada, as lágrimas diante da morte de um amigo, a angústia no Getsêmani, o silêncio diante da do sofrimento injusto, a coragem na dor, o perdão na cruz. Ali está o mapa da condição humana — alegria, sofrimento, missão, abandono e entrega.

Quando olhamos para esse mapa, alguns caminhos começam a mostrar onde terminam. O adultério, por exemplo, não é apenas um erro privado; é o início de uma história marcada pela quebra da própria biografia, a traição de si mesmo por prazer, seja financeiro, sexual, ou em qualquer outra dimensão da vida familiar. As drogas não são apenas fuga do sofrimento ou algo assim; são a desistência gradual da própria lucidez.

Como terminar em paz se a vida foi construída na evasão? A negação da própria missão — o pai que não assume os filhos, o filho que abandona os pais, o profissional que escolhe sempre o caminho mais fácil — vai deixando lacunas que, no final, aparecem como uma história incompleta.

Não perdoar é talvez uma das formas mais silenciosas de escrever um final triste. Assim o ressentimento se acumula e acaba por transformar a memória em tribunal. Pequenas covardias diárias — mentiras repetidas, omissões, falta de coragem para fazer o que se sabe ser o certo — vão compondo um roteiro que, no último capítulo, se torna evidente.

A morte apenas lê em voz alta o que foi escrito pelas suas próprias mãos. Por isso, pensar na morte não é pessimismo. É lucidez. É entender que a vida que vale a pena ser vivida é aquela em que você cumpre sua missão com coragem. Não com perfeição, mas com direção clara, sabendo que você não é eterno aqui, que o tempo é limitado, que cada escolha pesa mais do que parece.

Tudo um dia acabará. Sua voz, sua rotina, seus problemas, seus planos. Restará uma história. E ela será lida — pelos seus filhos, pelos seus amigos, por aqueles que conviveram com você. Como será essa leitura? Como lembrarão de você?

Imagine abrir um livro com o seu nome na capa. Ler o capítulo da juventude, das decisões afetivas, das escolhas profissionais, das reconciliações adiadas, das coragens assumidas ou evitadas. Você continuaria lendo com orgulho ou teria vontade de fechar o livro antes do final?

Ainda há páginas sendo escritas. A consciência da morte não diminui o sentido ou o brilho da vida; ela a torna mais verdadeira e mais urgente. Porque, no fim, todos chegaremos ao último capítulo. A diferença estará apenas em uma coisa: se a história será lida como a vida de alguém que teve coragem de cumprir sua missão — ou como a de alguém que passou por ela sem nunca realmente viver.

Sem Filtros

É onde a filosofia desce do pedestal e pisa no chão duro da vida. Aqui, razão e emoção se encaram sem maquiagem: decisões difíceis, tensões internas, verdades reais e cotidianas. Esta coluna investiga a realidade como ela é — porque pensar, no fundo, sempre foi uma terapia radical para quem tem coragem de se olhar de frente. Publicada todos os sábados no Pulsar Notícias.

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Gabriel Pinheiro
É esposo, pai, psicoterapeuta e professor de filosofia. Comprometido com a formação integral do ser humano e apaixonado pelos dilemas, contradições e grandezas que compõem a experiência humana. Seu trabalho une três forças: rigor filosófico, sensibilidade clínica e vivência real.“Enfim, trabalho ajudando pessoas a entender que fugir não resolve NADA”. Conheça mais sobre ele clicando aqui.

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