Música ajuda a preservar memórias e vínculos na velhice
Há músicas que parecem guardar dentro delas pedaços inteiros da vida. Bastam os primeiros acordes de uma canção para alguém se lembrar de um baile, de um namoro, de uma festa de família, de um amigo que ficou no passado ou de uma época que já não existe. Para muitas pessoas idosas, a música não é apenas entretenimento. Ela também pode representar memória, identidade, afeto e uma forma de permanecer conectado com outras pessoas.
É justamente essa relação que ganha significado especial neste 1º de outubro, data instituída pela Organização das Nações Unidas como o Dia Internacional das Pessoas Idosas. A data foi estabelecida pela Assembleia Geral da ONU em 1990 e busca chamar atenção para os direitos, a dignidade, a participação social e a qualidade de vida da população idosa.
No Brasil, a expressão “Dia Nacional da Pessoa Idosa” também é utilizada para marcar a data, que se tornou uma oportunidade para discutir o envelhecimento para além das questões relacionadas à saúde. Envelhecer envolve continuar participando da sociedade, mantendo relações, desenvolvendo interesses e encontrando espaços de convivência.
É nesse cenário que a música ocupa um lugar particular. Ela acompanha diferentes fases da existência e, por estar associada a experiências pessoais, pode permanecer carregada de significado mesmo quando outras lembranças se tornam mais difíceis de acessar.
Uma canção ouvida durante a juventude pode transportar uma pessoa décadas para trás. O motivo não está apenas na melodia. A música costuma estar associada a pessoas, lugares, acontecimentos e emoções. Por isso, quando volta a ser ouvida, pode despertar lembranças que estavam adormecidas.
Esse potencial também é observado em contextos relacionados à demência. A Alzheimer’s Society, organização britânica dedicada à pesquisa e ao apoio a pessoas afetadas pela doença, destaca que atividades musicais podem favorecer conexão social e proporcionar momentos de prazer e convivência. Projetos de canto coletivo, por exemplo, reúnem pessoas com demência e seus familiares em torno de músicas conhecidas.
Isso não significa que a música seja capaz de curar doenças ou substituir tratamentos médicos. A relação é outra. Ouvir, cantar, tocar um instrumento ou participar de uma atividade musical pode criar oportunidades de interação, expressão e estímulo, especialmente quando a experiência é compartilhada.
A Organização Mundial da Saúde também reúne evidências sobre a participação nas artes e sua relação com saúde e bem-estar. Uma revisão publicada pelo escritório europeu da organização analisou mais de 3 mil estudos e encontrou evidências de que diferentes formas de envolvimento com as artes podem contribuir para a promoção da saúde, prevenção de problemas e bem-estar ao longo da vida.
Entre as possibilidades está justamente a música. Uma pessoa pode ouvir suas canções preferidas em casa, cantar com familiares, participar de um coral, aprender um instrumento ou simplesmente frequentar apresentações. Não existe uma única maneira de estabelecer essa relação.
Para a pessoa idosa, a atividade musical também pode representar uma oportunidade de sair de casa e encontrar outras pessoas. Esse aspecto é especialmente importante diante de um problema que não deve ser ignorado: o isolamento social.
A OMS considera a solidão e o isolamento social importantes determinantes sociais da saúde. Segundo a organização, aproximadamente 11,8% das pessoas idosas experimentam solidão e cerca de uma em cada quatro está socialmente isolada. A entidade ressalta que conexões sociais de qualidade são importantes para a saúde física, mental e o bem-estar.
Nesse sentido, uma roda de música pode ser muito mais do que uma atividade recreativa. Um coral, uma aula de dança, uma apresentação em um centro de convivência ou mesmo um encontro entre amigos para ouvir antigas canções pode criar vínculos e combater a sensação de afastamento.
Há também uma dimensão familiar. Muitas vezes, músicas que fizeram parte da juventude dos pais ou avós acabam sendo apresentadas às gerações seguintes. Uma canção pode se transformar em uma espécie de patrimônio afetivo familiar, atravessando décadas e aproximando pessoas de idades diferentes.
É comum que uma pessoa idosa conheça músicas que seus filhos ou netos nunca ouviram. Da mesma forma, os mais jovens apresentam novos artistas e gêneros aos mais velhos. Quando existe abertura para essa troca, a música deixa de ser apenas uma lembrança do passado e passa a funcionar como uma ponte entre gerações.
Essa perspectiva ajuda a combater uma ideia equivocada sobre o envelhecimento: a de que a pessoa idosa deve ser associada exclusivamente ao passado. A memória é importante, mas envelhecer também significa continuar descobrindo coisas, fazendo escolhas, criando vínculos e participando da vida cultural.
A música pode acompanhar esse processo. Uma pessoa pode continuar aprendendo, cantando, dançando, frequentando shows ou descobrindo novos estilos aos 60, 70, 80 anos ou mais. Não há idade determinada para estabelecer uma relação nova com a arte.
Também é importante lembrar que nem todo idoso possui as mesmas condições físicas, cognitivas ou sociais. Por isso, atividades musicais precisam respeitar limitações individuais, preferências e autonomia. O objetivo não deve ser obrigar alguém a cantar, dançar ou participar, mas oferecer oportunidades para que cada pessoa escolha como deseja se envolver.
Quando uma música desperta uma lembrança, não é apenas o passado que aparece. Pode surgir também uma conversa. “Essa era a música que tocava quando eu conheci sua mãe.” “Eu dançava essa música nas festas.” “Esse cantor fez parte da minha juventude.” Histórias como essas transformam a música em ponto de partida para preservar memórias familiares.
Por isso, celebrar o Dia da Pessoa Idosa também significa reconhecer que a população que envelhece tem histórias, experiências, conhecimentos e preferências que continuam tendo valor. A ONU destaca justamente a importância de reconhecer as contribuições das pessoas idosas e combater a discriminação baseada na idade.
No fim, talvez uma das maiores forças da música esteja em sua capacidade de conectar tempos diferentes. Uma canção pode pertencer ao passado de quem a ouviu pela primeira vez, mas continuar fazendo sentido no presente.
Para a pessoa idosa, ouvir uma música pode ser recordar. Cantar pode ser compartilhar. Dançar pode ser movimentar o corpo e celebrar a vida. E ouvir uma nova canção pode ser, simplesmente, descobrir algo que ainda não fazia parte da própria história.
1 comentário