Botão de soneca do celular ajuda ou prejudica o sono?

Apertar o botão de soneca do celular para dormir mais alguns minutos é um hábito comum, mas pode não proporcionar o descanso esperado. A dificuldade para levantar da cama depende de fatores como a duração e a qualidade do sono, o horário do despertar e a frequência com que o alarme é adiado. Segundo o neurologista Sidney Godoi, da Hapvida, o uso recorrente da função pode ser um sinal de que o organismo não está descansando o suficiente.

Quando o despertador toca, a pessoa pode voltar a dormir por mais cinco, dez ou 15 minutos, até que um novo alarme interrompa o descanso. Essa alternância entre sono e vigília pode aumentar a fragmentação do período final da noite e contribuir para a sensação de cansaço ao levantar. Os efeitos, porém, variam de pessoa para pessoa e dependem também do tempo total de sono.

O que acontece quando o despertador toca?

O sono é organizado em diferentes estágios, que se alternam ao longo da noite. Eles incluem fases não REM, que abrangem o sono leve e o profundo, e a fase REM, associada, entre outras funções, à consolidação de determinados tipos de memória.

Os ciclos não têm duração fixa: variam entre indivíduos e também ao longo da mesma noite. Por isso, não é possível garantir que programar o despertador em intervalos de 90 minutos fará alguém acordar descansado.

LEIA TAMBÉM:
Pesquisa revela média de duração da relação sexual

Ao voltar a dormir depois do primeiro alarme, a pessoa pode entrar novamente em um estágio do sono que será interrompido poucos minutos depois. A repetição desse processo pode dificultar a transição para a vigília e prolongar a sensação de sonolência.

É o que explica Sidney Godoi, neurologista da Hapvida e especialista em Medicina do Sono.

“Ao dormir apenas 5 a 15 minutos adicionais, o cérebro inicia a transição para sono mais profundo (aumento de ondas delta), mas é interrompido antes de completar o ciclo. Essa interrupção abrupta é um dos gatilhos da chamada inércia do sono, o estado de sonolência e baixa cognição ao despertar. Portanto, cientificamente, esse sono adicional não proporciona descanso reparador significativo. Ao contrário, tende a fragmentar ainda mais o sono e intensificar a sensação de fadiga, pois o cérebro é ‘puxado’ de volta à vigília no meio de um processo de aprofundamento para dormir”, alerta o médico.

O que é a inércia do sono?

Inércia do sono reduz a atenção e dificulta realização de tarefas – Foto: Freepik

A inércia do sono é um estado temporário de sonolência, redução da atenção e dificuldade para realizar tarefas cognitivas imediatamente depois de acordar. Em geral, melhora progressivamente, mas pode ser mais intensa ou duradoura quando há privação de sono, despertar em horários biologicamente desfavoráveis ou presença de distúrbios do sono.

LEIA TAMBÉM:
Geração X é mais satisfeita com vida amorosa e sexual 

A intensidade desse quadro varia. Algumas pessoas recuperam rapidamente o estado de alerta, enquanto outras demoram mais para se sentir plenamente despertas, especialmente quando dormiram menos do que precisam.

Segundo Godoi, a dificuldade persistente para acordar merece atenção quando vem acompanhada de outros sintomas, como cansaço durante o dia, problemas de concentração e sensação de sono não reparador.

Usar a soneca faz mal?

A resposta depende da frequência e das circunstâncias. Um estudo publicado no Journal of Sleep Research, conduzido por pesquisadores da Universidade de Estocolmo, avaliou o uso da função soneca e observou que, em determinadas condições, ela não prejudicou o desempenho cognitivo após o despertar. Os resultados, portanto, não sustentam a ideia de que qualquer uso do botão seja necessariamente prejudicial.

“Ou seja, apertar o botão de soneca uma ou duas vezes, por curtos períodos, parece ter impacto neutro ou até levemente positivo em alguns indivíduos. Já o uso repetido e prolongado, com múltiplos ciclos de soneca, tende a agravar a inércia, por interromper repetidamente estágios iniciais de sono profundo”, ressalta o neurologista da Hapvida.

Além disso, Godói explica que a dependência diária e persistente do botão de soneca é um sinal comportamental de que o organismo não está recebendo sono suficiente ou de qualidade adequada, e não é meramente um hábito neutro.

“Isso pode refletir em débito crônico de sono, que é o dormir menos que a necessidade individual, geralmente de 7 a 9 horas para adultos; sono fragmentado ou não reparador, mesmo com duração adequada, por despertares noturnos não percebidos; e possível distúrbio do sono subjacente, como apneia obstrutiva, que fragmenta o dormir sem que a pessoa tenha consciência disso”, destaca.

Isso não significa, entretanto, que adiar o alarme repetidamente seja uma estratégia recomendável para compensar noites mal dormidas. Interrupções frequentes podem tornar o descanso final mais fragmentado, e a sensação de sonolência pode persistir.

O neurologista ressalta que a dependência diária do botão de soneca pode indicar que a pessoa não está dormindo o suficiente ou que a qualidade do sono está comprometida.

“A combinação desses sinais pode indicar apneia do sono, insônia, distúrbios do ritmo circadiano ou outras condições que exigem diagnóstico formal, frequentemente por meio de polissonografia (estudo do sono)”, esclarece Godói.

A recomendação é observar o padrão: se o despertador precisa ser adiado várias vezes todas as manhãs, vale rever os horários de descanso e investigar se existe algum problema que esteja dificultando o despertar.

Dificuldade para acordar pode indicar um problema de saúde

Adultos geralmente precisam de sete a nove horas de sono por noite, embora a necessidade individual possa variar. Dormir menos do que o necessário com frequência pode acumular um déficit de sono e prejudicar a atenção, a memória, o humor e o desempenho durante o dia.

Além da privação de sono, algumas condições podem comprometer o descanso. A apneia obstrutiva do sono, por exemplo, provoca interrupções repetidas da respiração e pode causar despertares frequentes, mesmo quando a pessoa não se lembra deles.

Entre os sinais que merecem avaliação médica estão: sonolência excessiva durante o dia, mesmo após tempo suficiente na cama; ronco intenso, engasgos ou pausas respiratórias observadas durante o sono; dificuldade extrema para despertar ou confusão prolongada após acordar; irritabilidade e problemas de concentração ou memória; dores de cabeça frequentes pela manhã; sensação de sono não reparador apesar de dormir regularmente.

A presença desses sintomas não confirma, por si só, um distúrbio do sono. Um profissional de saúde poderá avaliar o histórico, os hábitos e a necessidade de exames, como a polissonografia.

Como melhorar o despertar

A principal orientação é organizar uma rotina que permita dormir o suficiente, em vez de depender de sucessivos alarmes para adiar o início do dia. Algumas medidas podem ajudar:

Manter horários regulares: procurar dormir e acordar em horários semelhantes, inclusive nos fins de semana, ajuda a estabilizar o ritmo circadiano.

Reservar tempo suficiente para dormir: ajustar o horário de ir para a cama pode ser mais eficaz do que tentar compensar o descanso pela manhã.

Buscar luz natural ao acordar: a exposição à claridade durante o início do dia ajuda a regular o relógio biológico e favorece o estado de alerta.

Reduzir fatores que prejudicam o sono: álcool próximo ao horário de dormir, nicotina e o uso de estimulantes em horários inadequados podem afetar o descanso.

Observar os próprios hábitos: registrar por uma ou duas semanas os horários de sono, os despertares e a sonolência durante o dia pode ajudar a identificar padrões.

Se a pessoa optar por usar a soneca ocasionalmente, é importante perceber como se sente e evitar que o hábito substitua o tempo adequado de sono. Não existe um número universal de minutos que garanta um despertar melhor para todos.

1 comentário

Publicar comentário