Picadeiro Eleitoral: o circo da servidão voluntária

Começa hoje o picadeiro eleitoral, o circo que sempre acontece de quatro em quatro anos. As tendas se armam, os holofotes se acendem e a plateia — anestesiada, receosa e habituada — toma seus assentos para assistir à reapresentação da mesma peça. Promessas triunfantes, vilões caricatos e soluções mágicas para problemas complexos dominam o palco central. No entanto, por trás da pirotecnia política e dos discursos inflamados, o espetáculo revela uma engrenagem psicológica e social profunda: o aproveitamento sistemático da ignorância, do medo e da autoindulgência humana promovido pelo Estado, alimentando os vícios mais sutis do ego.

O populismo moderno não prospera por acaso; ele se nutre das fragilidades e do orgulho do indivíduo. Em A Rebelião das Massas, José Ortega y Gasset diagnosticou a emergência do “homem-massa”: aquele que não exige nada de si mesmo, que se sente confortável na mediocridade e que, incapaz de um esforço autêntico de aperfeiçoamento moral ou intelectual, exige que o Estado resolva a totalidade da sua existência. É a personificação da autoindulgência política. O homem-massa deseja os privilégios da civilização, mas recusa-se a assumir os deveres que a sustentam.

Nesse horizonte de inflação do ego e fuga da responsabilidade, o Arcebispo Fulton Sheen sintetizou com precisão cirúrgica a ilusão soprada pelo paternalismo estatal ao afirmar:

“O Estado moderno expandiu-se porque o homem encolheu. Quando o ego recusa a disciplina interior da lei moral, ele exige a disciplina exterior da coerção estatal; e, quando busca escapar de suas próprias culpas, acolhe o Estado como seu novo e complacente absolutista.”

A frase de Sheen desnuda o cerne da questão: o Estado explora a ignorância e a vaidade ao prometer libertar o homem de seu próprio fardo ético, oferecendo garantias externas em troca da submissão interior.

A essa dinâmica junta-se o medo instrumentalizado. Como bem observou o psicólogo Gordon Allport ao estudar a formação dos preconceitos e a mentalidade de rebanho, o indivíduo inseguro busca conformidade cega e proteção em estruturas coletivas rígidas e figuras autoritárias. O circo eleitoral explora essa necessidade básica de segurança instilando o pavor do “outro” — o adversário elevado à categoria de inimigo existencial. Promete-se a salvação em troca da entrega da autonomia.

Nesse cenário, instala-se uma cobrança sufocante pelo engajamento partidário. Frequentemente resgata-se a célebre tese do dramaturgo Bertolt Brecht sobre o “analfabeto político” — aquele que, ao se abster da militância, deixaria de perceber que da política nascem os males sociais. Ocorre que, no atual espetáculo, essa premissa é distorcida: criou-se o dogma de que recusar a lógica binária da arena é um erro moral. Se você se nega a tomar partido no picadeiro, se rejeita o maniqueísmo vulgar e opta pelo discernimento racional em vez da militância cega, você é sumariamente rotulado como o “errado” ou o alienado. É a chantagem perfeita para arrastar a consciência individual para dentro da massa.

Entretanto, Viktor Frankl nos lembra que a verdadeira liberdade é inseparável da responsabilidade pessoal e da consciência ética. Em sua Análise Existencial, Frankl ensina que o ser humano não é mero produto de condicionamentos sociais; ele possui a capacidade — e o dever moral — de posicionar-se com maturidade diante das circunstâncias. O populismo opera na via oposta: despoja o homem de sua dimensão singular e espiritual, tratando-o como número, eleitorado capturado e consumidor passivo de slogans. Quando o Estado assume o papel de “provedor do sentido da vida”, ele não apenas infantiliza o cidadão, mas sufoca sua capacidade de autotranscendência.

O que esperar, portanto, deste novo ciclo que se inicia? O picadeiro eleitoral entregará o que sempre entregou: entretenimento moral, polarização ruidosa e a falsa promessa de que a redenção da sociedade virá por meio de um novo gestor do aparato estatal. A realidade, porém, permanece inalterada fora da lona. O amadurecimento de uma cultura e a superação da degradação social não brotam de comícios nem de promessas demagógicas, mas do ordenamento interior de cada indivíduo, do resgate da busca pelo sentido real e do exercício diário da responsabilidade pessoal.

Enquanto a plateia continuar buscando no palco eleitoral as respostas que só podem ser encontradas na consciência e na maturidade de cada um, o espetáculo da servidão continuará em cartaz.

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