Após pedido de Janja, Discord sofre pressão

A pressão sobre o Discord aumentou no Brasil após a plataforma ser relacionada a casos graves envolvendo adolescentes, violência e crimes praticados no ambiente digital. O debate ganhou força depois de um caso ocorrido em Naviraí, no Mato Grosso do Sul, que levou autoridades a discutirem medidas contra o serviço.

O episódio também provocou manifestações pela retirada do Discord do ar no país. A primeira-dama Janja da Silva defendeu o bloqueio da plataforma, enquanto órgãos do governo passaram a analisar possíveis falhas no cumprimento das regras brasileiras de proteção de crianças e adolescentes.

Segundo dados da SaferNet, as denúncias relacionadas ao Discord aumentaram 54% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram 406 denúncias nos primeiros sete meses deste ano, contra 264 em 2025. O número representa o maior volume registrado para o período desde o início da série histórica, em 2017.

O crescimento das denúncias ocorre em meio a relatos de utilização da plataforma para diferentes práticas criminosas. Entre os casos mencionados estão venda de drogas, armas e explosivos, planejamento de ataques, disseminação de conteúdo extremista, abuso de crianças e adolescentes, extorsão sexual, tráfico de pessoas e incentivo à automutilação e ao suicídio.

Como funciona o Discord

Criado nos Estados Unidos em 2015, o Discord surgiu como uma plataforma voltada principalmente para jogadores. Com o passar dos anos, o serviço passou a reunir comunidades de diferentes interesses, permitindo o compartilhamento de mensagens, imagens, áudios, vídeos e transmissões.

Uma das características da plataforma é a existência de servidores fechados, que podem exigir convite para entrada. Para especialistas, esse modelo dificulta a identificação de determinados conteúdos e comportamentos criminosos.

Thiago Tavares, da SaferNet, aponta que existem deficiências na detecção de conteúdos ilegais e poucas barreiras de entrada. Um dos problemas destacados é a ausência de mecanismos eficazes de verificação de idade.

Outro fator envolve a moderação. Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, explica que os administradores de cada comunidade possuem papel importante na definição de quem participa e do conteúdo publicado. Segundo ele, a empresa se posiciona mais como fornecedora da tecnologia do que como administradora de cada comunidade.

Bloqueio pode não resolver problema

Apesar da pressão pelo bloqueio, especialistas avaliam que retirar o Discord do ar não necessariamente impediria a prática de crimes. Uma das possibilidades seria a migração dos usuários para outras plataformas ou o uso de ferramentas capazes de contornar o bloqueio.

Entre essas ferramentas estão as VPNs, que permitem estabelecer conexões por diferentes servidores e podem ser utilizadas para acessar serviços bloqueados em determinados países.

Ayub também alerta para o chamado efeito rebote. Segundo ele, usuários envolvidos em atividades criminosas poderiam migrar para plataformas ainda mais distantes do alcance das autoridades brasileiras.

Governo cobra medidas da plataforma

Após a repercussão dos casos, a empresa se comprometeu a apresentar um plano com medidas destinadas a ampliar a proteção dos usuários. Paralelamente, a Agência Nacional de Proteção de Dados passou a apurar possíveis falhas no cumprimento das regras previstas no ECA Digital.

A plataforma deverá demonstrar que possui mecanismos para verificar a idade dos usuários, combater conteúdos que incentivem automutilação e suicídio, remover materiais ilegais e comunicar situações graves às autoridades.

Caso sejam identificadas irregularidades, a empresa poderá ser obrigada a alterar suas práticas e sofrer as sanções previstas na legislação, incluindo multas que podem chegar a R$ 50 milhões por infração.

O debate, portanto, ultrapassa a discussão sobre manter ou retirar o Discord do ar. O principal desafio envolve encontrar mecanismos capazes de proteger crianças e adolescentes, responsabilizar plataformas e combater crimes digitais sem simplesmente transferir o problema para outros ambientes da internet.

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