Livro inspirado em brincadeira é selecionado pelo PNLD

Uma brincadeira entre mãe e filha deu origem a uma história infantil que poderá chegar a escolas de diferentes regiões do Brasil. A escritora e ilustradora Karina Gera, que tem trajetória ligada a Franca e Ribeirão Preto, teve o livro “Fecha a Torneira, Dona Água é Ligeira” selecionado para o Guia do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) da Educação Infantil, referente ao ciclo de 2026 a 2029. A obra integra o Acervo 9 da Categoria 2, destinada à pré-escola, e aborda a preservação da água por meio de personagens, humor, rimas e imaginação.

A publicação faz parte de uma seleção de 356 obras aprovadas para compor o guia oficial dessa categoria. O processo de avaliação levou aproximadamente dois anos e envolveu etapas de inscrição, triagem, análise pedagógica, validação e seleção. A escolha representa uma oportunidade de ampliar a circulação da produção literária da autora e de aproximar as crianças de temas ambientais a partir de situações presentes no cotidiano.

A reportagem do Pulsar Notícias foi produzida a partir de matéria produzida pelo Portal GCN.

O livro nasceu da convivência de Karina com a filha, Justine, atualmente com 5 anos. Ao observar o interesse da menina pelas brincadeiras com água durante o banho, a escritora começou a desenvolver uma maneira de conversar sobre o desperdício sem transformar o assunto em uma explicação formal ou em uma lição de comportamento.

Livro infantil selecionado pelo PNLD nasceu em casa

A inspiração para a história surgiu em momentos comuns da rotina familiar. Karina costuma inventar narrativas para a filha durante o banho, nos deslocamentos de carro e antes de dormir. Nessas ocasiões, Justine pede uma “história da minha cabecinha”, expressão que traduz a liberdade criativa presente na relação entre as duas.

Foi desse exercício de imaginação que surgiu a ideia de transformar a água em uma personagem que foge e provoca situações inesperadas. A brincadeira permitiu abordar uma questão concreta, o uso responsável dos recursos naturais, por meio de uma narrativa acessível ao universo infantil.

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Segundo Karina, a filha começou a compreender, a partir do conto, a água como uma personagem que escapava e a torneira como o elemento responsável por controlar sua passagem. Ao perceber que aquela interação já tinha os elementos de uma história, a autora decidiu desenvolver a ideia como livro.

A escolha de trabalhar com a imaginação também está relacionada à maneira como a escritora entende a literatura para crianças. Em vez de apresentar uma mensagem fechada, a narrativa abre espaço para que os pequenos leitores construam interpretações próprias e relacionem os acontecimentos às experiências que vivem em casa e na escola.

A seleção pelo PNLD foi uma decisão consciente da autora. Entre 12 livros já publicados e dois títulos inéditos, ela escolheu inscrever “Fecha a Torneira, Dona Água é Ligeira” por acreditar no potencial pedagógico da obra.

História transforma torneira em detetive

A narrativa acompanha Tia Lokinha, uma menina ruiva e apaixonada pelo planeta que também aparece em outros livros de Karina. Enquanto escova os dentes, a personagem começa a imaginar qual seria a função da torneira e passa a enxergá-la como responsável por controlar o caminho percorrido pela água.

No banheiro, porém, a situação foge do esperado. A menina encontra um verdadeiro aguaceiro, e a torneira, incomodada com o que aconteceu, assume o papel de detetive para descobrir por onde a água escapou.

A investigação conduz a história por diferentes situações relacionadas ao desperdício. Enquanto a torneira considera a fuga um problema que precisa ser resolvido, a água aparece como uma personagem que deseja liberdade e diversão, sem compreender inicialmente a importância de seu uso consciente.

O conflito entre as personagens ajuda a apresentar o tema ambiental de maneira lúdica. Em vez de depender apenas de explicações sobre economia de água, a história utiliza ações, comportamentos e pontos de vista diferentes para estimular a curiosidade dos leitores.

Karina também deixa aberta a possibilidade de que os acontecimentos sejam fruto da imaginação da menina. Essa escolha permite que cada criança interprete a narrativa de acordo com sua própria experiência, sem que o livro determine uma única leitura possível.

Literatura infantil aborda desperdício de água

O ambiente doméstico ocupa papel importante na proposta educativa da obra. Para a autora, o banheiro é um dos espaços em que as crianças começam a desenvolver hábitos relacionados ao consumo de água, seja ao escovar os dentes, tomar banho ou utilizar a descarga.

A partir dessas situações, o livro pode funcionar como ponto de partida para conversas entre crianças, familiares e educadores sobre a importância de evitar o desperdício. A proposta é aproximar a educação ambiental da realidade dos pequenos, relacionando o conteúdo literário a comportamentos que podem ser observados e discutidos no cotidiano.

A narrativa foi escrita em versos rimados e utiliza jogos de palavras, metáforas e movimento para construir a história. Karina também assina as ilustrações, que contribuem para a compreensão dos acontecimentos e permitem que as imagens tenham papel importante na experiência de leitura.

Esse recurso é especialmente relevante na educação infantil, etapa em que muitas crianças ainda estão desenvolvendo as habilidades de leitura convencional. A observação das ilustrações, a identificação das personagens e a interpretação das cenas podem participar da construção de sentidos mesmo antes de a criança dominar plenamente a leitura de palavras.

No desfecho, a relação entre a torneira e a água muda. Depois dos conflitos, as personagens encontram uma maneira de conviver em harmonia e passam a formar a “dupla da economia”, apresentada como Fecha Torneira e Dona Ligeira.

A contracapa sintetiza a mensagem do livro com uma frase que brinca com o sentido das palavras: “Sabe o que podemos abrir à vontade? Livros! Torneiras não!”

A provocação relaciona o prazer da leitura à necessidade de utilizar a água com responsabilidade, mantendo o tom bem-humorado que acompanha a narrativa.

Seleção pelo PNLD amplia alcance da obra

PNLD é uma iniciativa do Ministério da Educação – Foto: Divulgação/Governo Federal

O Programa Nacional do Livro e do Material Didático é uma iniciativa voltada à avaliação e à disponibilização de obras e materiais para instituições públicas de ensino participantes. Na educação infantil, a seleção de títulos ocorre por meio de acervos, e não pela escolha isolada de cada livro.

A presença de “Fecha a Torneira, Dona Água é Ligeira” no Guia do PNLD 2026–2029 amplia a possibilidade de a obra ser escolhida pelas escolas que participam do programa. A inclusão no guia, entretanto, não significa que o livro será automaticamente distribuído a todas as instituições: as equipes escolares precisam analisar as opções disponíveis e registrar suas escolhas conforme as regras estabelecidas.

De acordo com as informações divulgadas sobre o processo, professores e equipes escolares podem consultar o guia e registrar a seleção dos acervos entre 13 e 30 de outubro de 2026, por meio do sistema PNLD Gestão.

A participação no programa representa uma oportunidade para autores e editoras ampliarem o alcance de suas publicações e para as escolas terem acesso a diferentes propostas literárias. No caso da obra de Karina, a temática ambiental se soma à construção poética e visual da narrativa, oferecendo possibilidades de trabalho pedagógico com crianças em idade pré-escolar.

A autora mantém vínculos profissionais e culturais com Franca e atualmente vive em Ribeirão Preto. Sua trajetória também é marcada pela produção de livros infantis que exploram a imaginação e o universo das crianças.

Maternidade também influencia produção literária

A experiência de ser mãe teve impacto na maneira como Karina compreende sua própria produção literária. A convivência com Justine passou a alimentar ideias e a oferecer situações concretas para a criação de histórias, como ocorreu com a personagem da água fujona.

Para a escritora, a literatura pode ir além da transmissão de informações e da apresentação de respostas prontas. Uma história também pode despertar perguntas, produzir imagens marcantes e continuar provocando reflexões depois que a leitura termina.

Essa perspectiva aparece na construção de “Fecha a Torneira, Dona Água é Ligeira”, em que a preservação ambiental não é tratada apenas como uma regra a ser seguida. O tema surge dentro de uma aventura protagonizada por personagens com desejos e comportamentos próprios, permitindo que as crianças acompanhem o conflito e tirem suas próprias conclusões.

Com a seleção para o PNLD, a obra passa a integrar um conjunto de publicações avaliadas para uso na educação infantil e ganha a possibilidade de alcançar novos leitores por meio das escolhas das escolas.

A história que começou nas brincadeiras durante o banho mostra como experiências familiares podem se transformar em literatura e contribuir para discussões importantes desde os primeiros anos de formação. Ao aproximar imaginação, leitura e cuidado com a água, Karina Gera apresenta uma proposta que busca despertar a consciência ambiental sem abrir mão da criatividade e do prazer de contar histórias.

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