Quem defende sua aposentadoria depois da eleição?

Você sabe o número do seu candidato. Sabe o que ele disse no debate, o que o adversário respondeu e até qual parente precisa receber aquele vídeo no grupo da família. Mas sabe quantos anos de contribuição o INSS reconhece em seu nome?

Neste domingo, 25 de outubro, segundo turno das eleições de 2026, essa pergunta pode parecer fora de hora. Eu acho que ela nunca esteve tão dentro do assunto.

Enquanto a campanha brasileira mobiliza tanta energia para a disputa entre candidatos, as manifestações que tomaram ruas da Europa nas últimas semanas trazem uma preocupação que deveria nos interessar: que condições de vida os jovens terão pela frente?

Vale entender o que está acontecendo. Na França, estudantes denunciam falta de professores, prédios inseguros e poucos recursos para as escolas. Houve manifestações e bloqueios em cidades como Paris, Toulouse e Lille. A mobilização passou a reunir também cobranças sobre custo de vida e serviços públicos.

Em Portugal, manifestantes montaram acampamentos no Porto e em Lisboa para cobrar respostas à crise da moradia e contestar mudanças nas regras do aluguel. Na Espanha, o preço das casas e dos aluguéis também levou pessoas às ruas e a acampamentos. Na Itália, os protestos incluem reivindicações por melhores salários, emprego e serviços públicos.

São movimentos diferentes, com participação de estudantes, trabalhadores e organizações políticas. Alguns atos tiveram confrontos com a polícia, incêndios e saques. Esses episódios exigem apuração e responsabilização. Mas olhar apenas para a confusão deixa sem resposta a pergunta que levou tanta gente a se mobilizar: como construir uma vida nessas condições?

Conseguir estudar. Ter um trabalho que permita pagar as contas. Sair da casa dos pais sem precisar escolher entre o aluguel e a comida. Existe um desencanto quando o esforço parece não levar a lugar algum. Olhando assim, a distância entre a Europa e a nossa mesa de jantar fica bem menor.

Por aqui, a troca de acusações entre os candidatos ganhou destaque, como se viu nos debates e entrevistas. Há promessas e propostas, que precisam ser examinadas. Mas a impressão que fica, em tantos momentos da campanha, é que os dois estão mais empenhados em apontar os defeitos um do outro do que em explicar como pretendem enfrentar os nossos problemas.

E parte dos eleitores acompanha como torcida organizada. Comemora a provocação, compartilha o ataque e procura uma justificativa para a falha do próprio candidato. Se o adversário faz, é um absurdo. Se o escolhido repete, aparece uma explicação. O grupo da família vira arquibancada, e ninguém quer sair derrotado da discussão.

O jovem brasileiro que dedica sua energia a essa torcida parece distante daqueles estudantes europeus que cobram condições para estudar, trabalhar e morar. As necessidades, porém, são muito parecidas. A diferença, nessas cenas, está no que se cobra de quem tem poder para decidir.

Há disputa partidária na Europa e jovens brasileiros comprometidos com causas sociais. Essa comparação não apaga isso. Ela serve para incomodar quem conhece cada acusação contra o adversário, mas não consegue explicar o que seu candidato propõe para o próprio futuro.

Eu gostaria de ter visto mais perguntas sobre as propostas dos presidenciáveis.

– Como melhorar o atendimento do INSS?

– Como enfrentar a demora nas perícias?

– O que se pretende mudar na Previdência Social?

– Quem será afetado e de onde virão os recursos?

Essas respostas precisariam ser cobradas dos dois.

A discussão sobre aposentadoria deveria começar bem antes do fim da vida profissional. Um jovem que não consegue entrar no mercado de trabalho já enfrenta um problema previdenciário. A dificuldade para contribuir pode comprometer sua proteção em caso de doença e a formação do tempo necessário para se aposentar.

Pense numa pessoa que adoeceu, precisou parar de trabalhar e aguarda o auxílio-doença, hoje chamado benefício por incapacidade temporária. Enquanto o pedido não é resolvido, ela continua precisando comer e pagar a conta de luz. Uma vitória no debate não resolve essa espera.

A aposentadoria não é presente de nenhum presidente. É um direito de quem cumpre os requisitos da lei. Reconhecer um direito não é fazer um favor. E a pessoa que recebe um benefício não passa a dever gratidão eleitoral a quem ocupa o governo.

Isso precisa valer mesmo quando o presidente é aquele em quem você votou. Você continuaria reclamando da demora no INSS, se seu candidato ganhasse? Cobraria explicações sobre uma proposta de reforma da Previdência? Ou começaria a aceitar uma desculpa que rejeitaria se viesse do outro lado?

Eu gostaria de ver esse interesse chegar também à vida de cada segurado. Você já conferiu o seu CNIS, o Cadastro Nacional de Informações Sociais? Os vínculos, salários e contribuições aparecem corretamente? É possível consultar o extrato pelo Meu INSS e comparar os registros com os documentos que você guarda. Divergências precisam ser verificadas. Planejamento previdenciário começa pelo conhecimento da própria história.

Também precisamos acompanhar o Congresso. Mudanças nas regras previdenciárias e decisões sobre o orçamento passam por mais gente do que aquela que aparece na propaganda presidencial. É preciso saber quem propõe, quem aprova e como a mudança afeta (de verdade) a vida do trabalhador.

Neste domingo, escolha com consciência. Depois, acompanhe o que o eleito fará. O voto não encerra a conversa nem obriga você a concordar com tudo pelos próximos quatro anos.

Antes de encaminhar outra provocação ao parente que vota diferente, talvez valha compartilhar uma informação que ajude os dois. Vocês podem precisar do mesmo INSS e ter muito mais a cobrar juntos do que imaginam.

E há uma ligação entre aqueles jovens e a sua aposentadoria que costuma passar despercebida. No INSS, as contribuições dos trabalhadores da ativa ajudam a pagar os benefícios atuais. É o regime de repartição, com solidariedade entre gerações. O financiamento inclui contribuições de empresas e outras fontes previstas na Constituição.

No modelo atual, a geração que hoje está estudando também ajudará a financiar as aposentadorias de amanhã. Cobrar oportunidades para esses jovens ajuda a defender o sistema do qual nós mesmos poderemos precisar.

Talvez você esteja gastando mais energia para garantir o futuro de um político do que para garantir que o seu filho tenha um.

No fim, cuidar do futuro dele também é cuidar do seu.

Tenho direito, doutor?

Tem como propósito esclarecer de forma clara o juridiquês (ou “juridiquês”), explorando em diversas áreas do Direito, especificamente Civil, Tributarista, Trabalhista e Previdenciário.

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Dr. Tiago Faggioni Bachur
É advogado, professor e especialista em Direito Previdenciário. Atua na defesa dos direitos sociais, com foco em benefícios e revisões do INSS, BPC/LOAS e planejamento previdenciário. Autor de obras jurídicas.

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