O labirinto do espelho retrovisor 

Há uma tragédia silenciosa na arte de caminhar olhando apenas para o retrovisor. É o que Viktor Frankl diagnosticou como a existência retrospectiva: o colapso temporal em que o indivíduo, esmagado pelo peso das perdas ou pelas culpas do ontem, perde o horizonte do futuro e passa a vegetar “atrás do próprio cadáver”.

Quando o amanhã deixa de ser uma promessa a ser cumprida e o presente se reduz a um museu de lamentações, o solo existencial desaba. É desse vazio que nascem o desânimo paralisante, a tibieza da alma — que já não ousa escolher entre o calor e o frio — e a escravidão sufocante do “o que vão pensar de mim?”. 

Contudo, para compreender a profundidade desse fechamento, precisamos avançar para além da cronologia e olhar para a arquitetura da nossa própria personalidade. Como bem formulou Gordon Allport ao cunhar o conceito de proprium — essa dimensão profunda que abrange tudo o que é subjetivamente central para nós, aquilo que faz parte íntima do nosso eu, unificando nossas aspirações, valores e a nossa identidade mais verdadeira —, o ser humano saudável não é refém passivo de seus condicionamentos ou de sua história passada.

Allport nos ensina que a maturidade psicológica exige um movimento de autonomia funcional e uma orientação decisiva rumo aos objetivos futuros (o striving). Quando a pessoa estaciona na existência retrospectiva, o seu proprium atrofia-se: ela cessa de se projetar, abandona o leme da própria agência e passa a mendigar validação nas máscaras sociais e no julgamento alheio. 

Para romper essa prisão, a sabedoria clássica de Aristóteles em sua Ética a Nicômaco nos chama de volta à praça pública da ação (práxis).

A coragem (andreia) e a busca pelo fim último (telos) não aceitam a inércia da mornidão. Sair desse labirinto exige coragem para assumir o presente, coragem para desfazer-se da opinião volúvel da multidão e a ousadia de tomar a própria biografia não como uma sentença irrevogável, mas como matéria-prima para a reescrita do que realmente integra a nossa essência. 

Reflexões para Travessia

Se você reconhece em si mesmo os sinais dessa existência voltada para trás, pare um instante e encare estas perguntas:
A quem pertence o seu tempo interior? Ao passar dias avaliando o que já passou ou temendo o julgamento alheio, quanto da sua energia vital atual você está entregando a fantasmas que não fazem parte do seu proprium e já não têm poder real sobre a sua liberdade de escolha? 

Onde está ancorado o seu eu? Você tem agido a partir de convicções profundas e de um propósito escolhido (o seu futuro), ou tem se deixado arrastar pelos trilhos automáticos da tibieza, contentando-se em apenas “deixar a vida passar” longe daquilo que realmente lhe constitui por dentro? 

Qual é o próximo passo corajoso? Se Aristóteles e Frankl estivessem sentados diante de você agora, lembrando-lhe de que o sentido da vida não se espera sentado, qual é a única ação concreta e nobre que você poderia realizar hoje — por menor que seja — para retomar as rédeas do seu proprium e voltar a caminhar de frente para o futuro?

Bússola do Sentido

É onde a busca por propósito deixa de ser um ideal abstrato e se torna orientação para o cotidiano. Diante do caos, das crises e das variáveis que não controlamos, o sentido da vida não é algo que se inventa na teoria, mas que se descobre na prática. Esta coluna calibra o olhar para as respostas reais que a realidade nos exige, investigando o amadurecimento, a responsabilidade e a nossa capacidade de superar as dificuldades, porque encontrar um norte não é uma questão de otimismo ingênuo, mas de coragem para governar a si mesmo. Publicada todos os sábados.

Lucas Cartaxo é Psicoterapeuta e Comunicador. Possui pós-graduação em Gestão de Pessoas. É especialista em Logoterapia e Análise Existencial, inspiradas na obra de Viktor Frankl.

Seu trabalho concentra-se no desenvolvimento humano, no autoconhecimento e na busca de sentido para a vida, realizando atendimentos psicoterapêuticos on-line e produzindo conteúdos sobre propósito, responsabilidade e amadurecimento pessoal.

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