Setembro amarelo: Algumas dores não fazem barulho

Olá músico! Setembro é o mês em que somos convidados a falar sobre saúde mental, sofrimento emocional e prevenção do suicídio. Mas existe uma coisa que me incomoda quando chegamos a essa época do ano: às vezes, falamos tanto sobre o assunto que corremos o risco de esquecer justamente aquilo que mais importa — a pessoa que está sofrendo.

Nem toda dor aparece.

Existem pessoas que continuam trabalhando, respondendo mensagens, cuidando dos filhos, fazendo planos, sorrindo para fotografias e dizendo “está tudo bem”, enquanto travam uma batalha que ninguém ao redor consegue enxergar.

Eu sei disso porque eu já estive desse lado.

Eu tive depressão. Durante dois anos, passei por isso. E sei como é doloroso. Sei como é difícil acordar e sentir que o mundo ao seu redor parece estar desmoronando, enquanto, por fora, a vida continua acontecendo normalmente.

É uma sensação difícil de explicar para quem nunca passou por ela. Em alguns momentos, parece que aquilo vai durar para sempre. Que aquela tristeza, aquele vazio e aquela falta de perspectiva passaram a fazer parte de quem você é.

Mas não passaram.

No meu caso, do mesmo jeito inexplicável que a depressão chegou, ela também foi embora. Não foi simples. Recuperar-me foi difícil, levou tempo e exigiu ajuda, mas aconteceu.

E talvez seja justamente por ter vivido isso que hoje eu penso tanto sobre o quanto precisamos ser cuidadosos uns com os outros.

Porque nunca sabemos o que existe por trás de um sorriso, de uma resposta curta ou daquele “está tudo bem” que alguém diz automaticamente.

Por isso, acho que o Setembro Amarelo também pode ser um convite para olharmos uns para os outros com um pouco mais de cuidado. Não aquele cuidado invasivo, que exige explicações ou tenta resolver a vida de alguém, mas a disponibilidade de perceber quando uma pessoa não parece exatamente como antes e perguntar, de verdade, como ela está.

Às vezes, não temos a resposta certa. Não sabemos o que dizer. Temos medo de tocar em um assunto delicado e acabamos escolhendo o silêncio.

Mas ouvir não significa ter uma solução.

Existe uma diferença enorme entre dizer “vai ficar tudo bem” e simplesmente dizer: “Eu estou aqui. Você não precisa passar por isso sozinho.”

Também aprendi que pedir ajuda não é uma declaração de fracasso. Não significa que você deveria ter conseguido sozinho. Há momentos em que aquilo que conseguimos carregar com nossas próprias forças simplesmente deixa de ser suficiente.

Falar com alguém de confiança. Procurar um profissional. Ligar para o CVV pelo 188, que oferece apoio emocional gratuito e sigiloso. Procurar um serviço de saúde quando o sofrimento estiver intenso ou houver risco imediato.

Não é preciso encontrar as palavras perfeitas para pedir ajuda.

Basta começar.

Talvez a música nos ensine alguma coisa sobre isso. Uma música pode ter silêncio, tensão, dissonância, pausa e resolução. Uma parte difícil não significa que a composição inteira terminou.

Na vida, também atravessamos momentos que parecem não ter saída. E, quando estamos dentro deles, pode ser muito difícil imaginar que a história ainda pode mudar.

Eu sei disso porque um dia eu também não conseguia enxergar o que existia depois daquela fase.

E hoje eu consigo olhar para trás e perceber uma coisa que, naquela época, eu não conseguia acreditar:

a dor não era o fim da história.

Por isso, se você estiver passando por um período assim, procure ajuda. Conte para alguém o que está acontecendo. Não carregue sozinho aquilo que já está pesado demais.

E, se você conhece alguém que anda mais distante, diferente ou silencioso, não espere ter certeza de que existe um problema para se aproximar.

Pergunte.

Escute.

Fique por perto.

Porque existem momentos em que uma pessoa não precisa que alguém tenha a frase perfeita.

Ela precisa descobrir que não está sozinha.

Que este Setembro Amarelo não seja apenas sobre falar de saúde mental.

Que seja sobre aprendermos a olhar uns para os outros com mais humanidade e lembrar que, mesmo quando não conseguimos enxergar uma saída, a história ainda pode mudar.

Existe uma coisa que demorei a entender sobre as emoções: elas nem sempre aparecem para nos atrapalhar. Muitas vezes, elas aparecem para nos contar alguma coisa que ainda não conseguimos colocar em palavras.

A ansiedade pode estar tentando dizer que alguma coisa dentro de nós está pedindo atenção. A tristeza pode aparecer quando alguma perda ainda não foi elaborada. A raiva pode esconder um limite que foi ultrapassado muitas vezes. O medo pode estar apontando para algo que consideramos importante demais para perder.

O problema é que, muitas vezes, aprendemos a tratar nossas emoções como inimigas. Queremos parar de sentir tristeza, controlar a ansiedade, esconder a raiva, afastar o medo. Como se uma vida emocionalmente saudável fosse uma vida em que estivéssemos bem o tempo inteiro.

Mas ninguém vive assim.

Sentir faz parte de estar vivo.

E existe uma diferença enorme entre sentir uma emoção e ser dominado por ela.

Quando conseguimos olhar para aquilo que estamos sentindo com um pouco mais de curiosidade, começamos a perceber que existe uma história por trás daquela emoção. Em vez de perguntar apenas “como faço isso parar?”, podemos perguntar: “O que isso está tentando me dizer?”

Essa pergunta muda muita coisa.

Porque, quando conseguimos nomear o que sentimos, deixamos de estar completamente perdidos dentro da sensação. A tristeza deixa de ser apenas “eu estou mal” e pode se transformar em “eu estou sofrendo por alguma coisa”. A ansiedade pode deixar de ser apenas um desconforto e revelar uma preocupação específica. A raiva pode mostrar uma necessidade que foi ignorada durante muito tempo.

Dar nome às coisas não faz a dor desaparecer.

Mas dá contorno a ela.

E aquilo que tem contorno pode ser compreendido.

Foi assim que comecei a perceber que autoconhecimento não significa conhecer todas as respostas sobre nós mesmos. Significa ter coragem de permanecer diante das perguntas.

Por que isso me incomoda tanto?

Por que determinada situação me paralisa?

Por que continuo aceitando algo que me machuca?

Do que eu realmente tenho medo?

O que eu estou tentando evitar sentir?

Às vezes, passamos anos tentando encontrar uma saída sem perceber que nem sequer entendemos exatamente de onde estamos tentando sair.

É como entrar em uma floresta sem saber onde estamos. Podemos caminhar durante horas, gastar energia e até acreditar que estamos avançando, mas sem reconhecer o lugar em que estamos, qualquer direção parece possível.

Conhecer nossas emoções é uma forma de acender uma pequena luz nessa floresta.

Não necessariamente para mostrar o caminho inteiro.

Mas para mostrar o próximo passo.

E talvez seja isso que torna o autoconhecimento tão poderoso. Ele não promete uma vida sem sofrimento. Ele nos dá condições de compreender melhor o sofrimento quando ele chega e perceber quais caminhos podem nos levar para fora dele.

Nem sempre conseguimos fazer isso sozinhos. Há momentos em que conversar com alguém, procurar ajuda profissional ou simplesmente permitir que outra pessoa nos acompanhe é parte fundamental desse caminho.

Não precisamos entender tudo para começar a sair de um lugar difícil.

Precisamos apenas começar a escutar aquilo que estamos sentindo.

Porque, muitas vezes, a emoção que mais queremos silenciar é justamente aquela que está tentando nos mostrar onde dói.

E quando finalmente conseguimos olhar para essa dor sem fugir dela, alguma coisa muda.

Não porque encontramos imediatamente a saída.

Mas porque, pela primeira vez, sabemos onde estamos.

E quem sabe onde está já não está completamente perdido.

Reflexões da Dani

Tem como objetivo retratar o cotidiano do músico de forma verdadeira e leve, compartilhando experiências e inquietações que surgem entre ensaios, palcos, estudos e silêncios…

image-1 Quando o trabalho não preenche o coração

Dani Oliveira
Graduada em Gestão Financeira, especialista em Tráfego Pago, apaixonada por Marketing e COO da Musixe. Ela trabalha para aproximar alunos da música de forma acessível, humana e prática, valorizando tanto a técnica quanto a vivência artística.

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